Wagner Moura, cinema brasileiro e o debate sobre financiamento cultural após o Globo de Ouro

Ator retoma discurso sobre políticas públicas enquanto vitória internacional reacende discussões sobre como o cinema nacional é financiado

Redação - SOM DE FITA

1/15/2026

A vitória de O Agente Secreto no Globo de Ouro 2026 colocou o cinema brasileiro novamente no centro das atenções internacionais — mas também reabriu, no debate público interno, uma discussão recorrente: como filmes nacionais são financiados e qual o papel das políticas públicas nesse processo. A consagração do longa, dirigido por Kleber Mendonça Filho, e o prêmio inédito de Wagner Moura como Melhor Ator em Filme de Drama, deram fôlego tanto à celebração artística quanto à circulação de informações imprecisas nas redes sociais.

Realizada no tradicional Beverly Hilton, em Los Angeles, a cerimônia do Globo de Ouro marcou um feito histórico: além de vencer na categoria de Melhor Filme de Língua Não Inglesa, o Brasil levou dois prêmios na mesma edição, algo inédito até então. O reconhecimento internacional, porém, veio acompanhado de uma enxurrada de comentários sobre o suposto uso da Lei Rouanet no financiamento do filme — algo que não corresponde à realidade.

Nesse contexto, uma fala antiga de Wagner Moura voltou a circular com força, reforçando a importância das políticas públicas de incentivo à cultura e reacendendo um debate que vai além de um único filme.

Um discurso que atravessa o tempo e volta ao centro do debate

Após a vitória no Globo de Ouro, trechos de uma declaração de Wagner Moura passaram a ser amplamente compartilhados nas redes sociais. Embora não tenha sido feita durante a cerimônia, a fala ganhou novo significado diante da repercussão internacional do filme. Nela, o ator reflete sobre sua própria trajetória e sobre o papel do Estado no desenvolvimento cultural do país:

“Eu sou fruto das leis de incentivo à cultura. Eu existo porque na Bahia, nos anos 1990, houve leis que possibilitaram que atores do teatro baiano, como eu, Lázaro [Ramos], Vladimir [Brichta], pudéssemos existir como artistas. E não só isso. O país precisa se ver, se olhar. Nenhum país se desenvolve sem se olhar, sem se ver.”

Wagner segue destacando que o impacto do cinema não se limita à projeção internacional, mas à construção de identidade dentro do próprio país:

“Quando a gente vai pra fora com esse filme e as pessoas veem o Brasil, é um bônus. É uma imagem que a gente está levando pra fora, mas sobretudo somos nós aqui nos vendo, e o cinema brasileiro tem uma história quase documentarista. É um cinema que nasce tentando entender que país é esse. Essa é uma característica muito forte do cinema brasileiro, mais do que outros lugares eu acho.”

O conteúdo do discurso passou a ser utilizado tanto para defender políticas de fomento quanto para criticar, de forma generalizada, qualquer tipo de investimento público em cultura. Esse uso fragmentado da fala ajudou a alimentar confusões sobre o financiamento de O Agente Secreto, especialmente no que diz respeito à Lei Rouanet.

Após a vitória no Globo de Ouro, Wagner Moura reforçou a importância das leis de incentivo à cultura e do papel do Estado na formação de artistas no Brasil — Foto: Reprodução

Como O Agente Secreto foi financiado — e por que a Rouanet não entra nisso

Uma das informações mais distorcidas que circularam após o Globo de Ouro foi a de que O Agente Secreto teria sido financiado por meio da Lei Rouanet. Na prática, isso não procede. Criada em 1991, a Lei Rouanet é um mecanismo de incentivo fiscal voltado majoritariamente para projetos culturais como espetáculos, exposições, festivais e ações formativas — e não se aplica ao financiamento direto de longas-metragens de ficção como este.

Com orçamento estimado em cerca de R$ 27 milhões, o filme teve sua estrutura financeira baseada, principalmente, em investimentos privados e em mecanismos específicos do setor audiovisual. O aporte público federal ocorreu por meio do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), um instrumento criado para fomentar a produção cinematográfica e televisiva no país.

Administrado pela Agência Nacional do Cinema, o FSA funciona por meio de editais públicos, com critérios técnicos e avaliação de projetos. No caso de O Agente Secreto, foram liberados aproximadamente R$ 7,5 milhões após aprovação em edital em 2023, valor que representa apenas uma parte do orçamento total da produção.

Esse modelo de financiamento é semelhante ao adotado em diversos países com indústrias audiovisuais consolidadas, onde o Estado atua como indutor do setor, reduzindo riscos e estimulando a participação do capital privado. Ainda assim, o tema costuma gerar controvérsia no Brasil, especialmente quando filmes alcançam grande visibilidade internacional.

Um thriller político brasileiro de olho no Oscar

Ambientado no Recife de 1977, O Agente Secreto se passa nos últimos anos da ditadura militar brasileira e acompanha Marcelo, um especialista em tecnologia que retorna à cidade tentando deixar para trás um passado nebuloso. Longe de encontrar tranquilidade, o personagem se vê novamente envolvido em tensões políticas, vigilância e conflitos que refletem o clima de um país em transição.

A escolha do período histórico não é casual. O filme dialoga com uma tradição do cinema brasileiro que usa o thriller e o drama político como ferramentas para revisitar momentos decisivos da história nacional, sem recorrer a soluções fáceis ou leituras simplificadas. Essa abordagem contribuiu para a recepção positiva da obra em festivais e agora se reflete no reconhecimento do Globo de Ouro.

Com as vitórias recentes, o longa ganhou força na corrida por uma indicação ao Oscar na categoria de Melhor Filme Internacional. Wagner Moura, por sua vez, também desponta como possível indicado a Melhor Ator, o que reforça o momento raro de projeção global do cinema brasileiro.

Os indicados ao Oscar serão anunciados no dia 22 de janeiro, e a cerimônia está prevista para 15 de março. Até lá, o debate sobre financiamento cultural, políticas públicas e o papel do cinema na construção da identidade nacional deve continuar ocupando espaço — impulsionado não apenas por polêmicas, mas também por resultados concretos nas telas e nas premiações internacionais.

Mais do que um episódio isolado, a repercussão de O Agente Secreto evidencia como conquistas artísticas podem servir de gatilho para discussões estruturais sobre cultura, investimento e memória. Um debate que, goste-se ou não, tende a voltar sempre que o cinema brasileiro cruza fronteiras e se coloca diante do mundo.

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