VERNON REID reflete sobre “CULT OF PERSONALITY” e diz que música segue atual por expor falhas humanas

Guitarrista do Living Colour afirma que o sucesso atravessa décadas por falar de carisma, poder e da incapacidade humana de aprender com a própria história

Redação - SOM DE FITA

1/5/2026

Mais de três décadas depois de seu lançamento, “Cult of Personality” continua sendo uma das canções mais reconhecíveis do rock político norte-americano. Longe de soar como uma peça datada dos anos 1980, a música permanece frequentemente citada em debates culturais, reaparece em trilhas de jogos, transmissões esportivas e até em discursos políticos. Para Vernon Reid, guitarrista do Living Colour, isso não é coincidência: o tema central da canção segue atual porque toca em algo que dificilmente muda — o comportamento humano.

Durante participação recente no podcast Music Buzzz, Reid comentou sobre a longevidade da faixa e explicou por que acredita que sua mensagem continua encontrando eco em públicos muito diferentes. Segundo ele, a música nunca foi sobre um posicionamento partidário específico, mas sobre uma tendência recorrente da sociedade em se deixar seduzir por figuras carismáticas, independentemente do que elas realmente representam.

A ideia por trás de “Cult of Personality” e o fascínio pelo carisma

Ao falar sobre a essência da música, Vernon Reid foi direto ao ponto. “Bem, ela diz a verdade sobre quem nós somos. Nós nos apaixonamos pelo carisma. Nós nos apaixonamos pela história, pela apresentação”, afirmou o músico. Para ele, a canção parte da observação de que forma e conteúdo costumam caminhar juntos na maneira como líderes são percebidos pelo público.

Reid citou exemplos históricos para ilustrar esse mecanismo. “Era verdade — eu posso olhar para Malcolm X e Martin Luther King e falar sobre o que eles defendiam, mas os dois eram tão bonitos quanto galãs de matinê. E isso faz parte da coisa. A superfície e a substância estão juntas”, disse. Em seguida, ampliou o raciocínio ao mencionar outros nomes centrais do século XX: “O que havia em Gandhi que galvanizou uma nação? O que havia em Mussolini que hipnotizou uma nação?”.

A reflexão do guitarrista deixa claro que “Cult of Personality” não faz distinção moral simplista entre figuras históricas. A música não iguala ideias ou causas, mas aponta como o magnetismo pessoal pode operar tanto em líderes admirados quanto em figuras associadas a regimes autoritários. É justamente essa ambiguidade que, segundo Reid, mantém a canção relevante.

O músico também comentou que a interpretação da faixa varia bastante conforme o ouvinte. “Curiosamente, muitas pessoas conservadoras adoram essa música”, observou. “Elas entendem outra coisa, tiram algo diferente dela. Porque a canção é realmente sobre uma parte da condição humana que nós nunca vamos consertar. Nós nunca vamos consertar isso.”

Essa leitura ajuda a explicar por que “Cult of Personality” atravessa gerações sem perder força. Em vez de se apoiar em referências circunstanciais, a letra lida com padrões recorrentes de comportamento coletivo — algo que permanece reconhecível, independentemente do contexto histórico.

Para o Guitarrista Vernon Reid, “Cult of Personality” segue atual por tratar de padrões recorrentes do comportamento coletivo, mantendo força mesmo com o passar das gerações — Foto: Divulgação

O impacto da música na trajetória do Living Colour

Lançada como faixa de abertura do álbum Vivid, “Cult of Personality” foi fundamental para colocar o Living Colour no centro da cena musical do final dos anos 1980. Com uma combinação de riffs pesados, groove funk e referências explícitas à política global, a música se destacou rapidamente no rádio e na então onipresente MTV.

O videoclipe, que incorporava trechos de discursos históricos e imagens de arquivo, ajudou a consolidar a identidade visual e conceitual da banda. A canção alcançou a 13ª posição nas paradas e se tornou, de forma incontestável, o maior sucesso comercial do grupo.

Em entrevista concedida à revista Guitar Player em 2021, Vernon Reid falou sobre sua relação pessoal com a música. “Eu amo essa canção por razões óbvias. Claro, é a nossa música mais popular. O que ela fez pela nossa carreira é incalculável”, afirmou. Ele destacou ainda o impacto duradouro da faixa junto ao público: “A letra tem uma frase de efeito que, embora não tenha sido criada por nós, se tornou cada vez mais relevante ao longo dos anos”.

Apesar do sucesso, Reid ressaltou que o valor da música vai além dos números. “Há outro motivo pelo qual eu a amo tanto. Quando nós a escrevemos, foi o melhor dia da nossa vida coletiva. Como grupo, nós saímos do nosso próprio caminho e nos permitimos criar. É por isso que ela é especial para mim”, explicou.

O álbum Vivid também marcou um momento histórico na indústria musical. Ele se tornou o primeiro disco de uma banda de rock formada exclusivamente por músicos negros a vencer um Grammy na categoria Best Hard Rock Performance. Além disso, o clipe de “Glamour Boys” entrou para a história como o primeiro da MTV a contar com legendas para pessoas com deficiência auditiva.

A vida contínua da canção na cultura pop e no debate público

A longevidade de “Cult of Personality” também foi comentada por Corey Glover, vocalista do Living Colour, em entrevista concedida em abril de 2024 ao programa The Logan Show. Para ele, a música foi decisiva não apenas para a banda, mas para sua própria vida profissional.

“Eu acho que, se não fosse por essa música, eu estaria trabalhando na UPS. Que tal isso?”, disse Glover, em tom bem-humorado. “Se não fosse por essa canção e pela natureza perene dela, porque parece que de tempos em tempos ela reaparece em lugares muito interessantes”.

O cantor citou alguns desses contextos inesperados: “Com o CM Punk, ou nos videogames, ou no ‘Guitar Hero’, ou até dentro do discurso político, quando as pessoas usam a música e a citam em telejornais. Ela tem uma espécie de vida contínua estranha, e eu fico muito feliz e muito grato por ela existir”.

Essa circulação constante ajuda a explicar por que novas gerações continuam descobrindo a faixa, muitas vezes fora do contexto original do álbum Vivid. A música passou a funcionar quase como um comentário sonoro recorrente sobre ciclos de poder, mídia e liderança, sendo apropriada por diferentes campos culturais.

Após um período de separação em 1995, o Living Colour se reuniu oficialmente no ano 2000 e segue ativo desde então, com mudanças pontuais em sua formação — o baixista original Muzz Skillings deixou o grupo em 1992 e foi substituído por Doug Wimbish. A banda continua se apresentando ao vivo e mantendo seu catálogo em circulação, enquanto “Cult of Personality” permanece como ponto central de sua identidade artística.

Paralelamente ao trabalho com o grupo, Vernon Reid também mantém carreira solo. Seu álbum mais recente, Hoodoo Telemetry, foi lançado em outubro de 2025 pelos selos Artone e The Players Club Records, ampliando ainda mais o escopo de sua produção musical.

Ao olhar para trás, Reid não trata “Cult of Personality” como uma peça de nostalgia, mas como uma obra que segue dialogando com o presente. Para ele, a permanência da música é menos um mérito estético e mais um reflexo incômodo: enquanto a sociedade continuar se deixando guiar pelo brilho do carisma acima da reflexão crítica, a canção continuará fazendo sentido.

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