STRANGER THINGS reacende clássicos do rock nas paradas do Reino Unido

Série encerra trajetória empurrando hits dos anos 80 de volta ao Top 40 britânico

Redação - SOM DE FITA

1/13/2026

O encerramento da quinta e última temporada de Stranger Things marcou o fim de uma das séries mais influentes da última década — e, como já virou padrão, o impacto extrapolou o universo do streaming. Mais uma vez, a trilha sonora oitentista associada à produção da Netflix provocou um efeito dominó nas paradas musicais, recolocando canções clássicas do rock e do pop no radar do grande público e, sobretudo, na Official Singles Chart do Reino Unido.

O fenômeno não é exatamente novo, mas voltou a chamar atenção pela força e pela variedade dos retornos. Faixas lançadas entre o fim dos anos 1970 e meados dos anos 1980 reapareceram no Top 40 britânico décadas depois de suas estreias originais, impulsionadas por cenas-chave da série, viralizações em redes sociais e pelo consumo massivo em plataformas de streaming. O resultado é um retrato claro de como produtos audiovisuais contemporâneos continuam a funcionar como catalisadores culturais — especialmente quando lidam com memória afetiva.

O impacto imediato da trilha sonora no Top 40 britânico

Segundo dados divulgados pelo Official Charts Company, a semana de encerramento da série foi marcada por movimentações expressivas na parada britânica. O salto mais chamativo veio de “Purple Rain”, de Prince, que voltou ao Top 40 pela primeira vez desde a morte do artista, alcançando a 12ª posição. Trata-se de um retorno simbólico: além de ser um dos maiores clássicos dos anos 1980, a música carrega um peso histórico e emocional que foi potencializado pelo contexto dramático da série.

Outro exemplo emblemático é “Running Up That Hill”, de Kate Bush. A canção, que já havia protagonizado um ressurgimento histórico em temporadas anteriores, voltou a ganhar fôlego e subiu para o 14º lugar, reafirmando seu status como um dos maiores “segundos atos” da história recente da música pop. O caso de Kate Bush, inclusive, passou a ser citado com frequência por analistas da indústria como prova de que catálogos antigos podem alcançar novos picos comerciais quando associados a narrativas audiovisuais fortes.

Esse tipo de movimento reflete uma mudança estrutural no consumo musical. Diferente da era do rádio e da televisão linear, o streaming permite que faixas antigas reapareçam com a mesma força competitiva de lançamentos atuais. Quando uma série do porte de Stranger Things insere essas músicas em momentos narrativos decisivos, o impacto é imediato e mensurável — tanto em execuções quanto em downloads.

O streaming permite que músicas antigas voltem a competir com lançamentos atuais, impulsionadas por séries como Stranger Things — Foto: Reprodução

Canções que voltaram décadas depois e o papel das plataformas digitais

Além dos nomes mais óbvios, outros retornos chamaram atenção pela distância temporal entre lançamento e nova entrada na parada. “Landslide”, do Fleetwood Mac, estreou no Top 40 britânico 41 anos após seu lançamento original, alcançando a 20ª posição. O feito reforça a capacidade da série de apresentar faixas profundas de catálogo a públicos que talvez nunca tivessem contato com elas fora desse contexto.

Já “Every Breath You Take”, do The Police, atingiu sua melhor colocação no Reino Unido em mais de quatro décadas. Embora seja uma música amplamente conhecida, seu retorno ao centro das atenções ilustra como a ressignificação de uma canção — quando colocada em um novo ambiente narrativo — pode alterar completamente sua percepção pública.

O movimento não se restringiu ao rock. Nomes do pop dos anos 1980 também reapareceram com força, como Diana Ross e Tiffany, beneficiados por cenas específicas e pelo efeito cascata gerado nas redes sociais. No caso de David Bowie, “Heroes” voltou a figurar entre as músicas mais consumidas da semana, reforçando a recorrente redescoberta de sua obra por novas gerações.

As plataformas digitais desempenham um papel central nesse processo. Algoritmos de recomendação, playlists temáticas e a facilidade de acesso ao catálogo completo de artistas ajudam a prolongar o impacto muito além do episódio ou da cena em questão. O que antes seria um pico pontual hoje se transforma em semanas — às vezes meses — de redescoberta contínua.

Nostalgia, narrativa e o efeito duradouro de Stranger Things

Fechando o pacote nostálgico, “Should I Stay Or Should I Go”, do The Clash, voltou ao Top 40 após 35 anos fora da parada. A música, que já havia sido associada à série em temporadas anteriores, reapareceu impulsionada pelo desfecho da história, mostrando que certas conexões entre trilha sonora e narrativa permanecem ativas na memória do público.

O sucesso recorrente dessas músicas levanta uma discussão mais ampla sobre o papel cultural de Stranger Things. A série não apenas utilizou o repertório dos anos 1980 como pano de fundo estético, mas o integrou de forma orgânica à narrativa. Em muitos casos, as canções funcionaram como extensões emocionais dos personagens, o que facilita a criação de vínculos duradouros entre música, cena e espectador.

Do ponto de vista da indústria musical, o fenômeno também reforça a importância estratégica de sincronizações bem planejadas. Catálogos antigos, muitas vezes tratados como produtos estáveis e previsíveis, voltam a se tornar ativos altamente lucrativos quando inseridos em produções de grande alcance global. Para gravadoras e editoras, trata-se de uma vitrine poderosa; para os artistas — vivos ou não —, de uma nova camada de relevância.

Ao final, o que se observa é menos uma simples onda de nostalgia e mais um diálogo entre gerações. Stranger Things encerra sua trajetória deixando claro que o rock e o pop dos anos 1980 continuam vivos no imaginário coletivo, capazes de competir em igualdade de condições com lançamentos contemporâneos. O retorno dessas músicas às paradas britânicas não é apenas um tributo ao passado, mas um lembrete de que grandes canções raramente pertencem a um único tempo — elas apenas aguardam o momento certo para serem redescobertas.

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