REC-BEAT celebra 30 anos com edição histórica no Carnaval do Recife

Festival gratuito chega a três décadas reforçando diálogo entre tradição, experimentação e diversidade musical no coração do Carnaval pernambucano

Redação - SOM DE FITA

1/13/2026

O Rec-Beat entra em 2026 atravessando uma marca simbólica: 30 anos de atividade contínua, resistência cultural e curadoria atenta às transformações da música no Brasil e no mundo. A edição comemorativa do festival acontece entre os dias 14 e 17 de fevereiro, no Cais da Alfândega, área central do Recife, mantendo o formato gratuito que se tornou uma de suas principais características ao longo das décadas. Antes mesmo de anunciar as primeiras atrações, o evento apresentou o cartaz oficial da edição histórica, sinalizando os caminhos estéticos e conceituais que devem guiar a celebração.

Assinada por Caramuru Baumgartner, em colaboração com Tâmara Habka, a identidade visual se inspira na estética das carrancas, elementos simbólicos da cultura ribeirinha nordestina. O cartaz traz três figuras centrais: uma carranca feminina e duas outras inspiradas na estética “King Kong” do Mestre Guarany, artista ligado à região do Rio São Francisco, conhecido por transitar entre o popular e o contemporâneo. A escolha não é aleatória: ela dialoga diretamente com a própria trajetória do Rec-Beat, que desde o início aposta no encontro entre tradição, invenção e circulação global de ideias.

Segundo os artistas responsáveis pelo cartaz, o conceito visual desta edição busca sintetizar o espírito do festival e sua relação com o território onde acontece. “Celebramos o festival como o portal multicultural que abre caminhos no sábado de Carnaval, ligando a modernidade ao cais do Recife, um dos mais antigos do mundo, e ao Rec-Beat, um dos festivais mais tradicionais do Brasil”, afirmam. A declaração reforça a ideia do evento como ponto de passagem — entre épocas, estilos e geografias — mais do que como vitrine de tendências passageiras.

Três décadas de circulação musical e transformação cultural

Criado em 1995 pelo jornalista e produtor cultural Antonio Gutierrez, o Rec-Beat surgiu em um momento de efervescência cultural no Recife, quando movimentos locais dialogavam com cenas independentes internacionais e novas linguagens artísticas ganhavam espaço fora do eixo comercial tradicional. Desde então, o festival se consolidou como um ambiente de descoberta, apostando em artistas que muitas vezes ainda não tinham visibilidade ampla, mas apresentavam propostas sonoras consistentes e conectadas ao seu tempo.

Ao longo dessas três décadas, o Rec-Beat acompanhou — e em muitos momentos antecipou — mudanças profundas na indústria musical. A digitalização, o fortalecimento das cenas independentes, o intercâmbio cada vez mais intenso entre países do Sul Global e a diluição de fronteiras entre gêneros musicais encontraram no festival um espaço fértil de experimentação. Não se trata apenas de uma sequência de shows, mas de um projeto curatorial que entende a música como linguagem viva, em constante transformação.

Outro aspecto que marca a trajetória do festival é sua atenção permanente à diversidade geográfica e cultural. A programação historicamente abre espaço para sons vindos da América Latina, do Caribe, da África e da Europa, promovendo encontros improváveis e ampliando o repertório do público. Essa vocação internacional, no entanto, nunca se deu em detrimento da cena local. Pelo contrário: o Rec-Beat sempre funcionou como um catalisador para artistas pernambucanos e brasileiros, colocando-os em diálogo com produções de outros países e contextos.

Um festival que extrapola o Recife, mas mantém raízes firmes

Embora tenha o Recife como base simbólica e afetiva, o Rec-Beat não se limitou geograficamente ao longo de sua história. Em diferentes momentos, o festival realizou edições e ações em cidades como São Paulo, Salvador, Fortaleza, Caruaru e João Pessoa, ampliando seu alcance e levando sua proposta curatorial a outros públicos. Essa circulação ajudou a consolidar o nome do Rec-Beat como referência nacional, sem perder o vínculo com o território onde nasceu.

O reconhecimento institucional também chegou. Em 2023, o festival recebeu o título de Patrimônio Cultural Imaterial do Recife, um marco importante não apenas para a organização, mas para a própria cena musical independente da cidade. A certificação reconhece o papel do Rec-Beat na preservação, difusão e renovação das práticas culturais locais, destacando sua contribuição para a identidade do Carnaval recifense e para a economia criativa da região.

Essa relação com o Carnaval, aliás, sempre foi um dos diferenciais do evento. Enquanto grande parte da programação carnavalesca se volta para manifestações tradicionais ou formatos consagrados, o Rec-Beat ocupa um espaço específico: o de apresentar novas sonoridades em meio à festa popular, criando uma alternativa para quem busca experiências musicais fora do óbvio, sem romper com o clima coletivo da celebração.

A edição de 30 anos e as expectativas para 2026

Para a edição de 30 anos, a organização promete manter os pilares que sustentaram o festival até aqui, ao mesmo tempo em que sinaliza abertura para novas leituras e formatos. As primeiras atrações devem ser anunciadas ainda em janeiro, aumentando a expectativa em torno da programação completa. Embora o foco inicial tenha sido a divulgação do cartaz, a escolha estética já antecipa o tom da edição: respeito às tradições culturais do Nordeste aliado a uma postura aberta à experimentação contemporânea.

O fato de o evento seguir gratuito também é um dado relevante. Em um cenário de festivais cada vez mais caros e segmentados, o Rec-Beat preserva o acesso amplo como princípio fundamental. Isso garante não apenas diversidade de público, mas também a circulação real das ideias e sonoridades apresentadas no palco, reforçando o papel do festival como espaço público de encontro e troca.

Ao completar 30 anos, o Rec-Beat não parece interessado em apenas olhar para o próprio passado. A edição de 2026 surge como uma espécie de balanço em movimento: reconhece a trajetória construída, mas aponta para frente, reafirmando a importância de continuar apostando em artistas, cenas e discursos que ainda estão se formando. Em um país marcado por ciclos rápidos de esquecimento cultural, a longevidade do festival funciona quase como um gesto político — o de insistir na música como ferramenta de diálogo, reflexão e pertencimento.

Serviço

Festival Rec-Beat 2026 – 30 anos

📅 14 a 17 de fevereiro
⏰ A partir das 19h
📍 Cais da Alfândega – Bairro do Recife
🎟 Gratuito

A programação completa será divulgada em breve.

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