Produtores de música seguem cautelosos diante do avanço da inteligência artificial, aponta pesquisa global
Estudo internacional revela que a adoção de IA generativa ainda é limitada na produção musical profissional, com forte resistência a usos totalmente automatizados
Redação - SOM DE FITA
12/16/2025




A inteligência artificial se consolidou como um dos principais temas de debate no setor criativo ao longo de 2025, atravessando discussões sobre direitos autorais, ética, mercado de trabalho e transformação tecnológica. No entanto, quando o foco se volta especificamente para a produção musical profissional, a presença da IA parece bem menos dominante do que o discurso público sugere. É o que indica um novo levantamento internacional realizado pela plataforma Tracklib, especializada em licenciamento musical.
De acordo com o estudo Music Producers & AI 2025, apenas 6% dos produtores musicais profissionais afirmam utilizar ferramentas de inteligência artificial generativa de forma regular em seus fluxos de trabalho. O número contrasta com a percepção de que a tecnologia estaria rapidamente substituindo processos criativos tradicionais e sugere uma adoção muito mais cautelosa do que se costuma imaginar.
A pesquisa ouviu 1.734 produtores ao redor do mundo e buscou mapear não apenas o uso prático das ferramentas, mas também as percepções, resistências e expectativas da categoria em relação à IA. O resultado é um retrato marcado por desconfiança, pragmatismo e um debate ainda em construção sobre os limites entre assistência tecnológica e criação artística.
Entre rejeição e neutralidade, produtores evitam adesão automática à IA
Os dados do levantamento mostram que a maioria dos profissionais da música ainda não vê a inteligência artificial como uma aliada central do processo criativo. Segundo o estudo, 38% dos produtores entrevistados se declararam ativamente contrários ao uso de IA na criação musical, enquanto 45% adotam uma postura neutra, observando os desdobramentos antes de tomar posição definitiva. Apenas 17% afirmaram ter uma visão favorável à incorporação da tecnologia em seus trabalhos.
Essa distribuição revela que, mesmo com a popularização de ferramentas baseadas em IA em outros setores da indústria criativa, a música mantém um ritmo próprio de assimilação tecnológica. Diferentemente de áreas como design gráfico ou edição de vídeo, onde algoritmos já desempenham papel mais visível, a produção musical ainda preserva uma relação muito forte com processos autorais, sensibilidade estética e decisões subjetivas.
Entre os produtores que já utilizam algum tipo de inteligência artificial, a preferência recai majoritariamente sobre aplicações assistivas. Ferramentas voltadas para tarefas como equalização, masterização, limpeza de áudio ou organização de sessões são vistas como extensões técnicas do trabalho humano, e não como substitutas do processo criativo em si. Esse uso funcional, segundo o estudo, é percebido como menos invasivo e mais alinhado à lógica tradicional dos estúdios.
A pesquisa, divulgada com repercussão em veículos especializados como a Music Tech, sugere que a resistência não está necessariamente ligada a um rejeicionismo tecnológico, mas a uma preocupação com o papel da autoria e da identidade artística em um cenário cada vez mais automatizado.



Pesquisa indica que a maioria dos produtores ainda resiste ao uso de IA na criação musical, com apenas 17% favoráveis à tecnologia — Imagem gerada por IA

Geração completa de músicas por IA enfrenta forte rejeição
Se o uso assistivo da inteligência artificial encontra alguma aceitação, o mesmo não pode ser dito sobre ferramentas totalmente generativas. Sistemas capazes de criar músicas inteiras a partir de prompts de texto, sem intervenção humana direta, são amplamente rejeitados pelos produtores entrevistados.
Apenas 6% dos participantes admitiram utilizar esse tipo de recurso em seus trabalhos. Em contrapartida, 82% se posicionaram contra a geração completa de faixas por inteligência artificial. As justificativas mais recorrentes envolvem preocupações artísticas, éticas e jurídicas, especialmente no que diz respeito aos direitos autorais e à originalidade das obras.
Para muitos profissionais, a música não pode ser reduzida a uma soma de padrões estatísticos aprendidos por algoritmos. O receio é que a adoção indiscriminada de ferramentas generativas leve à homogeneização sonora, à diluição de identidades culturais e à dificuldade de atribuir autoria de forma clara. Há também o temor de que modelos de IA treinados com catálogos existentes reproduzam estilos e estruturas sem o devido reconhecimento aos criadores originais.
Outro ponto sensível destacado pelos produtores é a falta de regulamentação clara sobre o uso dessas tecnologias. Em muitos países, a legislação ainda não acompanha o ritmo de desenvolvimento da IA, o que gera insegurança tanto para quem cria quanto para quem consome música. Nesse contexto, a resistência aparece menos como um freio ao progresso e mais como uma tentativa de preservar parâmetros mínimos de justiça e transparência no setor.
Transparência no streaming vira ponto central do debate
A discussão sobre inteligência artificial na música não se limita aos estúdios e à etapa de produção. O impacto da tecnologia sobre as plataformas de streaming também foi abordado pelo estudo da Tracklib, e os resultados apontam para uma posição firme dos produtores profissionais.
Segundo a pesquisa, 78% dos entrevistados defendem que músicas 100% geradas por inteligência artificial não deveriam ser disponibilizadas em serviços de streaming como o Spotify. Para esse grupo, a presença desse tipo de conteúdo nas plataformas comprometeria a lógica de valorização do trabalho humano e criaria concorrência desleal com artistas e produtores que dependem da música como fonte de renda.
Entre aqueles que aceitam a possibilidade de faixas geradas por IA estarem disponíveis ao público, a exigência principal é a transparência. A maioria defende que haja identificação clara do uso de inteligência artificial, com rotulagem visível e divulgação obrigatória por parte dos produtores ou detentores dos direitos. Essa medida permitiria ao ouvinte fazer escolhas conscientes e ajudaria a preservar a distinção entre obras humanas e produções automatizadas.
O levantamento reforça a percepção de que, para a maior parte dos produtores musicais, a inteligência artificial pode ter um papel complementar, mas não substitutivo. A tecnologia é vista como uma ferramenta potencialmente útil para otimizar processos, reduzir tarefas repetitivas e ampliar possibilidades técnicas, desde que não apague o fator humano que sustenta a criação musical.
Ao revelar uma adoção mais tímida do que o imaginado, o estudo Music Producers & AI 2025 contribui para um debate mais equilibrado sobre o futuro da música em tempos de automação. Em vez de um cenário de substituição acelerada, os dados apontam para um período de observação, ajustes e disputas conceituais, no qual produtores buscam entender como — e se — a inteligência artificial pode coexistir com a arte sem comprometer seus fundamentos essenciais.
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