PETER GABRIEL retoma calendário lunar e anuncia novo ciclo de lançamentos ao longo de 2026
Projeto “o\i” dá sequência a “i/o” e prevê singles mensais ligados às fases da lua, com versões alternativas e artes visuais exclusivas
Redação - SOM DE FITA
1/6/2026




Após transformar o calendário lunar em parte ativa de sua estratégia criativa em 2023, Peter Gabriel confirmou que pretende repetir a experiência em 2026. O artista britânico anunciou oficialmente “o\i”, um novo projeto que funciona como continuação direta de i/o e que, mais uma vez, se estrutura a partir das fases da lua. A proposta é lançar um single a cada lua cheia ao longo do ano, revelando gradualmente o conteúdo do álbum até sua conclusão.
A iniciativa reforça uma característica recorrente na trajetória de Gabriel: a recusa em tratar o lançamento de um disco apenas como um evento pontual. Em vez disso, o músico prefere diluir a experiência no tempo, criando uma relação mais contínua entre obra, público e contexto. No caso de “o\i”, essa relação volta a ser mediada por um ritmo natural e universal — o ciclo lunar — que organiza tanto a divulgação das músicas quanto suas versões alternativas e os elementos visuais associados a cada faixa.
O primeiro capítulo desse novo ciclo foi apresentado no sábado, 3 de janeiro, coincidindo com a primeira lua cheia de 2026. A música escolhida para inaugurar o projeto foi “Been Undone”, faixa que estabelece o tom conceitual do trabalho e sinaliza que Gabriel não pretende simplesmente repetir a fórmula anterior, mas expandi-la.
Um álbum que se constrói ao longo do tempo, não de uma vez
Assim como ocorreu em “i/o”, cada composição de “o\i” será disponibilizada em duas versões distintas. O chamado “Lado Sombrio” chega sempre durante a lua cheia, enquanto o “Lado Brilhante” é liberado nas luas novas de cada mês. Essa lógica cria um contraste deliberado entre interpretações, arranjos e atmosferas, permitindo que uma mesma música seja percebida sob diferentes perspectivas.
Mais do que uma estratégia promocional, o formato reflete uma visão artística específica. Gabriel tem explorado, há décadas, a ideia de que uma canção não é um objeto fechado, mas algo mutável, sujeito a releituras e variações. Ao distribuir essas versões ao longo do tempo, o músico convida o público a acompanhar o processo, em vez de receber o produto final de forma imediata.
O método também dialoga com hábitos contemporâneos de consumo musical, nos quais o lançamento fracionado de singles se tornou comum. A diferença, no entanto, está no enquadramento conceitual. Em “o\i”, o fracionamento não responde apenas a algoritmos ou estratégias de mercado, mas a uma lógica narrativa que conecta música, tempo e natureza.
A promessa de um single a cada lua cheia ao longo de 2026 cria uma expectativa contínua e estabelece um calendário próprio, paralelo ao fluxo tradicional da indústria fonográfica. Ao final do ano, o conjunto dessas faixas deve formar um álbum completo, mas a experiência de acompanhá-lo se dá, principalmente, no percurso.



Peter Gabriel se apresenta na Little Caesars Arena em 29 de setembro de 2023, em Detroit, Michigan. | Foto: Reprodução

Diálogo entre música e artes visuais segue como elemento central
Outro aspecto mantido no novo projeto é a integração entre som e artes visuais. Cada música de “o\i” será acompanhada por uma obra de arte inédita, criada especialmente para dialogar com a faixa correspondente. No caso de “Been Undone”, a imagem escolhida foi “Ciclotrama 156 (Palindrome)”, da artista brasileira Janaina Mello Landini.
A obra se caracteriza por uma composição espelhada construída a partir de um nó central, criando uma estrutura que remete a um palíndromo visual. O trabalho de Landini, conhecido pelo uso de cordas, fios e estruturas entrelaçadas, dialoga com temas como repetição, simetria e complexidade orgânica — elementos que também atravessam a música de Gabriel.
Em comunicado oficial, o músico comentou a conexão pessoal com a obra da artista: “A maneira como ela pega a corda e a desenrola lembra quase fractais ou troncos de árvores e, de certa forma, também se assemelha ao cérebro; vejo muitos pontos de entrada”. A declaração reforça a intenção de não tratar a arte visual apenas como ilustração, mas como parte integrante da experiência do projeto.
Essa relação entre música e imagem não é novidade na carreira de Gabriel. Desde capas icônicas até projetos multimídia mais recentes, o artista sempre demonstrou interesse em expandir o campo de atuação de suas canções, aproximando-as de outras linguagens. Em “o\i”, essa abordagem ganha novo fôlego ao ser incorporada a um sistema de lançamentos que valoriza o tempo e a contemplação.
Experimentação como continuidade, não como exceção
Ao anunciar “o\i”, Peter Gabriel reforça uma postura que acompanha sua trajetória desde os anos 1970: a de tratar a experimentação como parte permanente do trabalho, e não como um desvio ocasional. O uso do calendário lunar, a divisão das músicas em versões contrastantes e a colaboração com artistas visuais fazem parte de um mesmo esforço para repensar como a música pode ser criada, apresentada e absorvida.
Embora o conceito possa soar inusitado, ele se apoia em uma lógica simples: devolver à experiência musical uma dimensão de espera e acompanhamento, em oposição à lógica do consumo imediato. Cada lua cheia funciona como um marco, um novo capítulo dentro de uma narrativa que se constrói gradualmente.
Com “o\i”, Gabriel não apenas dá sequência a “i/o”, mas também testa os limites de um formato que mistura tradição e inovação. Ao mesmo tempo em que dialoga com práticas antigas — como o respeito a ciclos naturais —, o projeto se insere plenamente no contexto digital, em que lançamentos seriados e conteúdos recorrentes fazem parte do cotidiano do público.
Ainda é cedo para saber como o álbum será recebido ao final de 2026 ou que caminhos sonoros ele irá explorar ao longo do ano. O que fica claro, por ora, é que Peter Gabriel segue interessado em transformar o ato de lançar música em algo mais amplo do que simplesmente apertar o botão de “play”. Em vez disso, ele propõe um acompanhamento contínuo, em que cada lua cheia marca não apenas o
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