Para MIKAEL ÅKERFELDT, o progressivo perdeu o impulso de avanço
Líder do Opeth questiona rótulos, critica fórmulas repetidas e diz que o “progressivo” atual muitas vezes se mostra "regressivo"
Redação - SOM DE FITA
1/14/2026




Durante décadas, o termo “rock progressivo” serviu como sinônimo de ousadia, experimentação e ruptura com fórmulas estabelecidas. Bandas que carregavam esse rótulo buscavam expandir os limites da música, misturando estilos, estruturas incomuns e influências que iam muito além do rock tradicional. No entanto, para Mikael Åkerfeldt, vocalista e guitarrista do Opeth, essa ideia já não se sustenta da mesma forma.
Em entrevista recente ao canal japonês Prog Project, repercutida pelo site Blabbermouth, Åkerfeldt foi direto ao colocar em dúvida o próprio significado do termo que acompanhou a carreira do Opeth por tantos anos. Sem rodeios, ele afirmou que boa parte do que hoje é chamado de progressivo parece, na prática, caminhar no sentido oposto da inovação. Daí a ironia: para ele, o rock progressivo atual soa cada vez mais “regressivo”.
A fala não surge como provocação vazia ou tentativa de criar polêmica gratuita. Pelo contrário, reflete uma inquietação antiga do músico em relação à cristalização de gêneros e à expectativa de que artistas repitam fórmulas que já funcionaram no passado. Ao comentar o desafio de ainda soar “progressivo” em um cenário musical saturado de rótulos, Åkerfeldt deixou claro que sua preocupação hoje está muito mais ligada à honestidade artística do que à necessidade de se encaixar em categorias.
O que ainda significa ser progressivo em 2026?
Questionado sobre a importância de manter o caráter progressivo em sua música, Mikael Åkerfeldt demonstrou certo distanciamento em relação ao próprio termo. Para ele, a palavra perdeu clareza ao longo do tempo e passou a designar mais um conjunto de clichês sonoros do que uma postura criativa real. Em suas próprias palavras:
“Não tenho certeza se é tão importante para mim sentir que somos progressivos, porque não sei mais o que isso realmente significa. Acho que antes era mais fácil definir uma banda progressiva porque estavam misturando estilos e coisas assim, mas hoje progressivo significa solos de guitarra rápidos e se tornou uma sonoridade, e talvez não tão progressiva. Acho que a música progressiva, especialmente no rock e metal, se tornou um pouco regressiva.”
A crítica aponta para um fenômeno recorrente na história da música: estilos que nascem como ruptura acabam se tornando fórmulas previsíveis. No caso do rock e do metal progressivo, elementos como solos técnicos, mudanças bruscas de andamento e estruturas longas passaram, segundo Åkerfeldt, a funcionar quase como um manual estético. O resultado é um paradoxo: músicas tecnicamente complexas, mas criativamente conservadoras.
Esse diagnóstico não se limita ao Opeth ou a um recorte específico do metal. Ele dialoga com uma percepção mais ampla de que muitos gêneros musicais, ao se institucionalizarem, perdem o espírito experimental que os originou. O “progressivo”, que um dia significou liberdade criativa, hoje muitas vezes representa um conjunto fechado de expectativas — tanto por parte do público quanto da indústria.

Para o guitarrista, crítica vai além do Opeth e aponta como gêneros que se institucionalizam tendem a perder o espírito experimental que os originou — Foto: Reprodução



Emoção, influência e evolução fora dos rótulos
Apesar da crítica ao uso atual do termo, Åkerfeldt não afirma que deixou de evoluir musicalmente ou de buscar novas referências. Pelo contrário. Ele ressalta que continua absorvendo influências variadas e “progredindo”, mas de uma forma que não depende da validação de um gênero específico. A diferença é que, hoje, essa evolução não está necessariamente ligada a uma estética progressiva reconhecível, e sim à conexão emocional com a música que cria.
Essa postura ajuda a explicar os caminhos tomados pelo Opeth nas últimas décadas, especialmente após a transição gradual do death metal progressivo para sonoridades mais próximas do rock setentista, do hard rock e até de elementos psicodélicos. Para parte do público, essa mudança foi vista como abandono das raízes. Para Åkerfeldt, trata-se apenas de seguir um impulso artístico natural, sem olhar para trás com nostalgia excessiva.
Ao ser perguntado se pensa conscientemente em soar progressivo durante o processo de composição, o músico foi ainda mais direto, deixando clara sua resistência à repetição e à pressão dos fãs mais apegados ao passado da banda:
“Não. Eu não quero me repetir. Muitos de nossos fãs querem que talvez repitamos o que fizemos no início dos anos 2000, mas não estou interessado nisso. Quero que sejamos progressivos, mas não necessariamente para que nos encaixemos no gênero de rock/metal progressivo.”
A declaração revela um conflito comum entre artistas longevos e seu público: a expectativa de reviver uma fase específica considerada “clássica”. No caso do Opeth, álbuns do início dos anos 2000 ainda são vistos como referência absoluta por muitos ouvintes. No entanto, Åkerfeldt deixa claro que revisitar esse período de forma literal não faz parte de seus planos criativos.
O Opeth e a recusa ao conforto criativo
Ao longo da carreira, o Opeth construiu uma reputação justamente por não se acomodar. Mesmo nos momentos em que a banda parecia consolidada dentro do metal progressivo, mudanças estruturais e estéticas sempre fizeram parte de sua trajetória. A recusa em repetir fórmulas, agora explicitada nas falas de Åkerfeldt, aparece como uma continuidade lógica dessa postura, e não como uma ruptura repentina.
A crítica ao progressivo “regressivo” também pode ser lida como um alerta para a cena como um todo. Quando estilos se tornam previsíveis, o risco não é apenas artístico, mas também cultural: a música deixa de provocar, questionar e surpreender. Para Åkerfeldt, manter o espírito progressivo não significa empilhar técnicas ou referências complexas, mas preservar a liberdade de mudar — mesmo que isso frustre expectativas.
Nesse sentido, o discurso do músico sueco se afasta tanto do saudosismo quanto da obsessão por inovação forçada. Ele não defende a destruição de gêneros, nem propõe uma revolução estética específica. O que coloca em pauta é algo mais simples e, ao mesmo tempo, mais difícil de sustentar: a autenticidade criativa em um ambiente que valoriza rótulos e repetições.
Ao afirmar que o progressivo perdeu parte de seu significado original, Mikael Åkerfeldt não decreta o fim do gênero, mas sugere uma reflexão incômoda. Talvez, para continuar avançando, seja necessário parar de se preocupar tanto com a ideia de “progresso” e voltar a ouvir a música com menos expectativas pré-fabricadas. Para o Opeth, ao menos, o caminho parece seguir nessa direção — mesmo que isso signifique, ironicamente, abandonar o rótulo que ajudou a consolidar sua história.
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