O METAL quer espaço, mas critica quem chega lá.

Entre a falta de visibilidade e a acusação de “venda ao sistema”, o metal revela um conflito interno que atravessa gerações, identidades e a própria ideia de pertencimento cultural.

Por Esdras Junior

1/13/2026

O heavy metal sempre cultivou uma relação ambígua com o mundo ao seu redor. Ao mesmo tempo em que construiu uma identidade baseada na oposição ao mainstream, o gênero nunca deixou de desejar reconhecimento, legitimidade e espaço cultural. Essa tensão se manifesta de forma recorrente em um paradoxo conhecido por qualquer pessoa minimamente envolvida com a cena: metaleiros reclamam da falta de espaço nas grandes mídias, mas quando esse espaço finalmente surge, a reação costuma ser de desconfiança, rejeição ou acusações de que quem chegou lá “se vendeu”.

Essa contradição não nasce do nada. Ela é fruto de décadas de marginalização simbólica, de conflitos com a indústria cultural e de uma construção identitária que associa autenticidade à exclusão. No entanto, quando observamos o metal fora desse eixo tradicional — especialmente em países onde o gênero se tornou parte da cultura popular — fica evidente que essa lógica não é inevitável, nem natural.

O desconforto do metal com o sucesso diz menos sobre a mídia e mais sobre como a própria cena aprendeu a se enxergar.

A herança do underground como identidade e valor simbólico

O underground, no metal, não é apenas uma fase ou um circuito alternativo. Ele se transformou em um valor moral. Estar fora da grande mídia passou a ser interpretado como sinal de pureza artística, enquanto qualquer aproximação com estruturas maiores passou a levantar suspeitas. Essa lógica se consolidou principalmente a partir do momento em que o metal começou a conviver com uma indústria musical cada vez mais orientada por hits, números e formatos padronizados.

Reclamar da ausência de espaço, nesse contexto, não significa necessariamente desejar se adequar ao mainstream, mas exigir reconhecimento cultural. O problema surge quando esse reconhecimento se materializa. Uma banda toca em um grande festival, aparece em um programa de TV aberta ou entra em uma parada de sucesso. O que poderia ser interpretado como uma conquista coletiva rapidamente se transforma em julgamento individual.

Essa dinâmica cria uma armadilha simbólica: o metal só é considerado legítimo enquanto permanece invisível. A partir do momento em que deixa o subterrâneo, passa a ser questionado, independentemente da qualidade, da coerência artística ou do discurso.

Esse comportamento reforça uma identidade construída mais pela negação do outro do que pela afirmação de si.

Mosh pit em show underground de metal, símbolo da identidade coletiva e da valorização da cena fora do mainstream

O papel da grande mídia como inimiga histórica (e necessária)

A desconfiança do metal em relação à grande mídia não é infundada. Durante décadas, o gênero foi tratado de forma caricata, associado a pânicos morais, violência ou exotismo. Em muitos países, jornais e emissoras ajudaram a construir uma imagem negativa do metal, reforçando estigmas que afastaram o gênero do centro do debate cultural.

Esse histórico cria uma relação marcada por ressentimento. Quando um grande veículo abre espaço, a pergunta não é “como isso ajuda o metal?”, mas “o que vai ser deturpado agora?”. Muitas vezes, a abordagem superficial ou sensacionalista confirma esse medo, reforçando a ideia de que o mainstream não entende o gênero.

Ao mesmo tempo, ignorar o papel da grande mídia é ignorar como a cultura circula. Mesmo em um mundo digitalizado, grandes veículos ainda funcionam como amplificadores simbólicos. Eles ajudam a legitimar gêneros, artistas e cenas perante públicos mais amplos, patrocinadores, políticas culturais e instituições.

É nesse ponto que o comparativo internacional se torna revelador. Em países como Finlândia, Suécia e Noruega, o metal deixou de ser tratado como um corpo estranho à cultura nacional. Nesses lugares, o gênero aparece em rádios comerciais, programas de TV, festivais financiados pelo Estado e até em eventos institucionais. O resultado é simples: o metal não precisa se justificar o tempo todo.

Quando o gênero é reconhecido como parte legítima da identidade cultural de um país, a relação com a mídia muda. O debate deixa de ser “vender-se ou não” e passa a ser “qual discurso está sendo construído”.

Fãs de metal extremo exibem camisetas de bandas underground, reforçando identidade, pertencimento e códigos internos da cena.

A acusação de “se vender” e o mito da pureza absoluta

A ideia de que existe uma “linha invisível” que separa a integridade da corrupção é uma das narrativas mais fortes dentro do metal. Assinar com uma gravadora maior, melhorar a produção, alcançar sucesso comercial ou simplesmente ampliar o público costuma ser interpretado como sinal de rendição.

Esse pensamento parte de um mito: o da pureza absoluta. Um estado ideal onde a arte existe fora de qualquer lógica econômica, institucional ou midiática. Na prática, esse estado nunca existiu. Desde o início, bandas de metal lidaram com contratos, distribuição, marketing e mediação cultural.

Nos países nórdicos, essa contradição foi resolvida de forma diferente. O metal não é visto como um “desvio” que precisa ser domesticado, mas como uma expressão cultural legítima. Bandas podem alcançar o topo das paradas sem que isso gere automaticamente acusações de traição. O sucesso não anula o pertencimento à cena.

Esse contraste evidencia que a acusação de “venda” é menos sobre escolhas artísticas e mais sobre insegurança coletiva. Quando a cena se sente constantemente ameaçada, qualquer mudança é interpretada como perda.

“Palco do Tuska Open Air Metal Festival, em Helsinque, na Finlândia, onde o metal ocupa posição central na cultura popular.”

Entre a crítica legítima e o auto-sabotamento cultural

Criticar a forma como o metal é representado na grande mídia é necessário. Questionar enquadramentos rasos, exigir profundidade e denunciar tentativas de pasteurização são atitudes saudáveis. O problema surge quando essa crítica se transforma em patrulhamento permanente.

Quando toda banda que conquista visibilidade é automaticamente desacreditada, o gênero entra em um ciclo de isolamento. Reclama-se da falta de espaço, mas pune-se quem consegue ocupá-lo. Reclama-se da invisibilidade, mas rejeita-se qualquer tentativa de diálogo.

O exemplo dos países nórdicos mostra que outro caminho é possível. Lá, o metal não perdeu sua diversidade, seu peso ou sua complexidade por se tornar popular. Pelo contrário: ao deixar de ser um gueto simbólico, o gênero ganhou fôlego, renovação e continuidade.

No resto do mundo, o metal ainda parece preso a uma lógica defensiva, onde resistir significa, muitas vezes, recusar qualquer forma de reconhecimento. Esse comportamento pode até preservar uma sensação de identidade, mas cobra um preço alto: a estagnação cultural.

Reconhecer essa contradição não significa abandonar o espírito crítico, nem aceitar qualquer forma de apropriação. Significa entender que visibilidade não é sinônimo automático de submissão — e que crescer não precisa significar se perder.

Enquanto o metal continuar tratando o sucesso como suspeito e a marginalização como virtude, seguirá preso a um conflito interno que diz mais sobre seus próprios medos do que sobre a mídia que tanto critica.

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