Nosso Segredo, estreia de Grace Passô na direção, terá première mundial no Festival de Berlim
Longa brasileiro integra a nova mostra competitiva Perspectives e marca a estreia da artista mineira no comando de um filme
Redação - SOM DE FITA
1/21/2026




O cinema brasileiro volta a marcar presença no circuito internacional com a seleção de Nosso Segredo para o 76º Festival de Berlim, que acontece entre os dias 12 e 22 de fevereiro. O longa, que marca a estreia de Grace Passô na direção de um filme, terá sua première mundial dentro da Perspectives, nova seção competitiva do festival, dedicada a obras autorais e a cineastas em início de trajetória no longa-metragem.
Produzido por Ricardo Alves Jr., em coprodução com Rachel Daisy Ellis, Julia Alves e a Globo Filmes, Nosso Segredo foi rodado em Belo Horizonte e se soma a uma safra recente de produções mineiras que vêm conquistando espaço em festivais internacionais. A seleção também reforça um momento de maior atenção ao cinema brasileiro no exterior, impulsionado por obras que apostam em narrativas íntimas, sociais e politicamente sensíveis, sem recorrer a fórmulas fáceis.
A estreia de Grace Passô na direção e o contexto da Berlinale
Reconhecida por sua trajetória no teatro e como atriz no cinema, Grace Passô assume em Nosso Segredo um novo papel criativo ao dirigir seu primeiro longa-metragem. A escolha da Berlinale como palco de estreia não é casual: historicamente, o festival alemão se consolidou como um espaço aberto a filmes que dialogam com questões sociais, identitárias e políticas a partir de abordagens autorais.
Sobre a seleção, a diretora comentou: “Tô feliz de estar num grande festival como a Berlinale. Este é um filme muito especial pra mim, e quem conhece o que venho criando há anos, sabe. Acho um momento também especial para a produção cinematográfica de Belo Horizonte, que marca uma presença histórica este ano no festival e também porque nós, brasileiras, estamos empolgadas com as repercussões de grandes cineastas brasileiros lá fora. Como pareceu dizer Kleber no discurso do Globo de Ouro, é um momento de empolgar as criações cinematográficas no Brasil”.
A presença do filme na nova mostra Perspectives reforça o interesse do festival em acompanhar trajetórias autorais desde seus primeiros longas, permitindo que esses trabalhos sejam avaliados não apenas como promessas, mas como obras com identidade própria. Para Passô, a estreia representa também uma expansão natural de uma pesquisa artística que já atravessa sua dramaturgia, marcada pelo silêncio, pela palavra e pelas tensões do convívio humano.



Grace Passô celebrou a estreia na Berlinale, destacando o momento especial para o cinema de Belo Horizonte e para as criações brasileiras — Foto: Divulgação

Luto, silêncio e segredos como motor narrativo
Nosso Segredo acompanha uma família negra que tenta reorganizar sua rotina após uma perda recente. O luto atravessa a casa de forma desigual: enquanto cada membro encontra estratégias próprias para seguir em frente, o filho caçula guarda um segredo que se torna central para o enfrentamento coletivo da dor. A narrativa se constrói a partir dessas camadas de silêncio, observando o que não é dito e como as ausências moldam as relações afetivas.
Grace Passô explica a origem da história: “A história que o filme conta me ajuda a refletir sobre o que está por trás do que não é dito nas convivências afetivas, na dimensão do luto e das ausências. Essa história é uma espécie de fonte para mim — assim como as famílias o são para nós. O roteiro é uma reescritura de ‘Amores Surdos’, primeira peça de teatro que escrevi”. A adaptação do texto teatral para o cinema amplia o alcance da obra, explorando o tempo, o espaço e os gestos com outra cadência.
O elenco é formado por Robert Frank, Ju Colombo, Efraim Santos, Jéssica Gaspar, Flip, Marisa Revert e Juan Queiroz, com participações especiais de Mateus Aleluia, Tássia Reis, Gláucia Vandeveld e Nanego Lira. A escolha dos intérpretes reforça o caráter coletivo do filme, que aposta mais na escuta e na presença do que em conflitos explícitos.
Produção mineira e os próximos passos do filme
Filmado integralmente em Belo Horizonte, Nosso Segredo dialoga com uma tradição recente do cinema mineiro que valoriza narrativas intimistas e processos colaborativos. A produção liderada por Ricardo Alves Jr. se insere nesse contexto, combinando experiência técnica com abertura para experimentação artística.
A estreia mundial na Berlinale marca o início do percurso internacional do longa, que deve circular por outros festivais antes de chegar ao público brasileiro. Sem promessas grandiosas ou discursos inflados, o filme se apresenta como um trabalho que aposta na delicadeza e na observação para tratar de temas universais. Para Grace Passô, o longa consolida uma transição natural entre linguagens e amplia o alcance de uma obra que sempre dialogou com o afeto, o silêncio e a complexidade das relações humanas.
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