Minas Gerais oficializa Dia do Heavy Metal e incorpora o gênero ao calendário cultural do estado

Nova lei reconhece a importância histórica e social da cena mineira, responsável por projetar o metal brasileiro para o mundo

Redação - SOM DE FITA

1/8/2026

Minas Gerais passou a contar oficialmente com o Dia do Heavy Metal, celebrado em 1º de novembro, após a sanção de uma lei estadual que reconhece a relevância cultural, histórica e social do gênero para o estado. A medida foi assinada pelo governador Romeu Zema e já está em vigor, com publicação no Diário Oficial. Mais do que uma data simbólica, a iniciativa consolida no calendário oficial um movimento musical que nasceu à margem, mas que ajudou a colocar Minas — especialmente Belo Horizonte — no mapa mundial da música pesada.

A criação da data não surge como um gesto isolado. Ela dialoga com décadas de produção cultural, formação de público, circulação de bandas e construção de uma identidade musical própria, que atravessou gerações e resistiu a ciclos econômicos, mudanças tecnológicas e transformações no consumo de música. Ao oficializar o Dia do Heavy Metal, Minas Gerais reconhece formalmente uma cena que sempre existiu, mesmo quando esteve fora das políticas culturais tradicionais.

Uma lei que nasce no Legislativo e chega ao calendário oficial

O Dia do Heavy Metal de Minas Gerais foi instituído a partir do Projeto de Lei 3388/2025, apresentado pelo deputado estadual Professor Cleiton (PV) e aprovado pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais no fim de 2025. A sanção pelo Executivo ocorreu nesta quarta-feira (7), encerrando o trâmite legal e garantindo validade imediata à nova data comemorativa.

De acordo com o autor do projeto, a proposta tem como objetivo reconhecer oficialmente a contribuição do heavy metal para a formação cultural do estado. Em sua justificativa, o parlamentar destacou que Minas Gerais abriga uma das cenas mais influentes do gênero no país, com impacto que extrapolou fronteiras regionais e nacionais. Não se trata apenas de música, mas de um fenômeno social que gerou redes de colaboração, ocupou espaços urbanos, fomentou eventos independentes e ajudou a construir uma identidade cultural própria.

A aprovação do projeto também reflete um movimento mais amplo de valorização de expressões culturais que, por muito tempo, ficaram à margem das políticas públicas. O heavy metal, historicamente associado a circuitos alternativos e à produção independente, passa agora a integrar oficialmente o calendário cultural do estado, abrindo espaço para ações educativas, eventos comemorativos e iniciativas de preservação da memória da cena mineira.

Embora a lei não estabeleça, por si só, a obrigatoriedade de eventos ou investimentos específicos, ela cria uma base institucional importante. A partir desse reconhecimento, produtores culturais, coletivos, casas de show e gestores públicos passam a ter um respaldo formal para desenvolver atividades relacionadas à data, fortalecendo ainda mais a visibilidade do gênero.

A nova lei reconhece Belo Horizonte como berço do heavy metal brasileiro, destacando a cena underground mineira que se formou nos anos 1980 — Foto: Reprodução

Belo Horizonte e o papel central na história do metal brasileiro

A justificativa da nova lei passa, inevitavelmente, pelo papel de Belo Horizonte na história do heavy metal brasileiro. Desde o início dos anos 1980, a capital mineira se consolidou como um polo criativo que revelou bandas fundamentais para a consolidação do metal extremo no país. Em um período marcado por limitações técnicas, escassez de recursos e pouco acesso a estúdios profissionais, jovens músicos mineiros criaram uma cena vibrante, conectada com o underground internacional e marcada por forte senso de comunidade.

É nesse contexto que surge o Sepultura, nome mais conhecido e internacionalmente reconhecido da cena mineira. Formada em Belo Horizonte, a banda se tornou um dos principais expoentes do metal mundial, influenciando gerações de músicos e ajudando a projetar o Brasil no circuito global do gênero. No entanto, o Sepultura não surgiu isolado: ele fez parte de um ecossistema que incluía fanzines, fitas demo, pequenos shows, selos independentes e uma rede de apoio mútuo entre bandas.

Ao longo das décadas, a cena mineira se reinventou, acompanhando mudanças estéticas e sonoras do metal, sem perder sua identidade. Novas bandas surgiram, festivais foram criados e o público se manteve fiel, mesmo diante de transformações no mercado fonográfico. Esse histórico ajuda a explicar por que Minas Gerais é frequentemente apontada como o berço do heavy metal brasileiro, um título que agora ganha reconhecimento oficial.

A simbologia do 1º de novembro e o peso de “Morbid Visions”

A escolha do 1º de novembro como Dia do Heavy Metal de Minas Gerais não é aleatória. A data remete ao lançamento de Morbid Visions, álbum de estreia do Sepultura, lançado em 1º de novembro de 1986. O disco é considerado um dos primeiros registros de death e black metal do mundo e ocupa um lugar central na história da música pesada, não apenas no Brasil, mas internacionalmente.

Gravado com recursos limitados e lançado inicialmente de forma independente, Morbid Visions se tornou um símbolo da força criativa da cena mineira. O álbum ajudou a estabelecer uma estética sonora agressiva e crua, alinhada com o que estava sendo produzido em outros polos do metal extremo na época, como Europa e Estados Unidos. Ao mesmo tempo, carregava uma identidade própria, fruto do contexto social e cultural de Belo Horizonte nos anos 1980.

Ao associar oficialmente o Dia do Heavy Metal à data de lançamento do disco, o estado de Minas Gerais reconhece não apenas uma banda específica, mas um momento fundacional da música pesada brasileira. A escolha reforça a ideia de que o heavy metal mineiro não é um fenômeno recente ou passageiro, mas parte de um legado construído ao longo de décadas.

Mais do que celebrar o passado, a data também aponta para o futuro. Ao entrar no calendário oficial, o Dia do Heavy Metal cria oportunidades para reflexões sobre preservação da memória, incentivo à produção contemporânea e reconhecimento de novos artistas que continuam a manter viva a tradição do metal em Minas Gerais. O gênero, que nasceu à margem, passa agora a ocupar um espaço institucional, sem perder sua essência contestadora e independente.

Com a nova lei em vigor, Minas Gerais dá um passo simbólico, mas significativo, ao reconhecer formalmente um movimento cultural que ajudou a definir sua identidade artística e projetar o estado para além de suas fronteiras. O heavy metal, antes restrito aos porões e palcos alternativos, passa a fazer parte, oficialmente, da história cultural mineira.

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