Livro revisita a trajetória do Teatro Experimental do Negro e seu impacto no teatro brasileiro
Nova edição amplia reflexão sobre a obra de Abdias do Nascimento e reforça a importância histórica e política do TEN na cena cultural do país
Redação - SOM DE FITA
1/7/2026




O lançamento de Teatro Experimental do Negro: testemunhos e ressonâncias recoloca em circulação um dos registros mais relevantes sobre a história do teatro brasileiro no século XX. Organizado originalmente por Abdias do Nascimento em 1966, o livro ganha agora uma edição revista e ampliada, organizada pela socióloga Elisa Larkin Nascimento e pelo gestor cultural Jessé Oliveira, com publicação da Edições Sesc em parceria com a Editora Perspectiva.
Lançada em novembro, a obra marca os 80 anos de fundação do Teatro Experimental do Negro (TEN), criado em 1944 no Rio de Janeiro. Mais do que uma simples reedição, o livro amplia o debate sobre o papel político, estético e social do grupo, resgatando documentos, ensaios e reflexões que ajudam a compreender como o TEN redefiniu o lugar de artistas negros no teatro brasileiro.
Com 328 páginas, a publicação combina textos históricos, análises críticas e um ensaio fotográfico de José Medeiros, que registrou em preto e branco o elenco e as montagens do grupo. O resultado é um panorama consistente sobre uma experiência artística que extrapolou os palcos e dialogou diretamente com as transformações sociais do país no pós-abolição.
O TEN e a ruptura com a cena teatral tradicional
Criado menos de seis décadas após a abolição da escravidão no Brasil, o Teatro Experimental do Negro surgiu em um contexto no qual atores negros eram sistematicamente excluídos dos palcos ou relegados a papéis estereotipados. A proposta do grupo era direta: valorizar a herança cultural afro-brasileira, formar artistas negros e garantir protagonismo na criação dramatúrgica, na escolha de repertório e na condução estética dos espetáculos.
Entre 1945 e 1958, o TEN encenou mais de 20 montagens, reunindo textos brasileiros e estrangeiros, além de revelar nomes que se tornariam centrais para a cultura nacional, como Ruth de Souza e Léa Garcia. A atuação do grupo não se limitava ao palco: havia também cursos de formação, debates públicos e uma produção intelectual voltada à crítica do racismo estrutural presente na sociedade brasileira.
Segundo Jessé Oliveira, um dos organizadores da nova edição, o diferencial do TEN estava justamente no controle criativo exercido por artistas negros. “Quem definia os temas [das peças], os textos [a serem encenados] e quem definia o rumo das atuações eram as pessoas negras”, afirma. Para ele, o grupo representa “um divisor de águas” ao profissionalizar uma companhia teatral negra e ampliar o espaço de debate sobre questões raciais no país.
Essa ruptura com a lógica dominante do teatro da época explica por que o TEN enfrentou resistência institucional, mas também por que sua influência permanece visível décadas depois. Ao reivindicar autonomia estética e política, o grupo criou um modelo que seria retomado por coletivos e companhias negras nas gerações seguintes.



Foto do acervo do IPEAFRO. | Imagem: Divulgação

Abdias do Nascimento e o teatro como projeto político
A trajetória de Abdias do Nascimento atravessa diferentes campos da vida pública brasileira. Artista plástico, dramaturgo, poeta, professor universitário, economista, ativista e parlamentar, ele articulou sua produção artística a um projeto político mais amplo de enfrentamento ao racismo e de valorização da cultura negra.
No livro, essa dimensão aparece de forma clara. Os textos reunidos mostram como o TEN funcionava como uma plataforma de intervenção cultural, questionando a ideia de que o Brasil seria uma “democracia racial”. Essa noção, associada a parte da intelectualidade do século XX, é confrontada por análises que evidenciam as desigualdades raciais persistentes no país.
Elisa Larkin Nascimento destaca que o TEN “faz a ponte entre o teatro moderno e contemporâneo no Brasil”, ao mesmo tempo em que oferece uma leitura crítica da sociedade brasileira distinta do discurso oficial. A presença de textos de intelectuais como Florestan Fernandes e Guerreiro Ramos reforça esse caráter interdisciplinar da obra, aproximando teatro, sociologia e política.
Além disso, a edição inclui contribuições de autores como Nelson Rodrigues e Efrain Tomás Bó, o que ajuda a contextualizar o TEN dentro de um debate cultural mais amplo, sem reduzi-lo a um fenômeno isolado ou restrito à militância.
Memória, apagamento e ressonâncias contemporâneas
Um dos objetivos centrais da nova edição é enfrentar o apagamento histórico do Teatro Experimental do Negro. Para os organizadores, a ausência do TEN nos currículos de escolas de teatro e cursos universitários ainda é sintomática de uma narrativa oficial que marginaliza experiências negras na história cultural brasileira.
“Elisa Larkin Nascimento lamenta que, nas escolas de teatro, muitos estudantes sequer tenham ouvido falar do TEN”, mesmo quando estudam a história do teatro nacional. Nesse sentido, o livro busca “fazer um registro mais estável” da experiência, garantindo que documentos, reflexões e testemunhos não se percam com o tempo.
Ao mesmo tempo, a obra não se limita ao passado. O conceito de “ressonâncias” presente no título aponta para a permanência das ideias de Abdias do Nascimento em práticas cênicas contemporâneas. Companhias e coletivos atuais, voltados para um teatro antirracista e comprometido com a diversidade, dialogam diretamente com os princípios formulados pelo TEN ainda nos anos 1940 e 1950.
O livro evidencia como essas influências atravessam gerações, seja na valorização de narrativas negras, seja na defesa de espaços autônomos de criação artística. Ao recuperar essa trajetória, a publicação contribui para uma leitura mais complexa da história do teatro brasileiro, reconhecendo que suas transformações não ocorreram apenas nos grandes centros institucionais, mas também a partir de iniciativas que desafiaram normas e estruturas excludentes.
Mais do que uma celebração, Teatro Experimental do Negro: testemunhos e ressonâncias se apresenta como um documento crítico. Ao revisitar o passado, o livro oferece ferramentas para compreender o presente e pensar o futuro do teatro no Brasil, reforçando a ideia de que memória, arte e política seguem profundamente interligadas.
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