IAN GILLAN se surpreende ao ser citado em “Stranger Things” e revela desconhecimento sobre uso de música do Deep Purple

Vocalista afirmou não acompanhar TV nem streaming e só descobriu a presença de “Child in Time” na série durante entrevista recente

Redação - SOM DE FITA

1/7/2026

Uma das bandas mais influentes da história do hard rock voltou a circular em um dos produtos culturais mais populares da atualidade — mas de forma totalmente inesperada para um de seus principais integrantes. A presença de “Child in Time”, clássico do Deep Purple, em um teaser da quinta e última temporada de Stranger Things, acabou gerando uma reação curiosa de Ian Gillan, que afirmou não saber absolutamente nada sobre o assunto.

A canção apareceu em julho, meses antes da estreia dos episódios finais da série da Netflix, em uma versão retrabalhada intitulada “Superhuman Stranger Things Version”. A escolha reforça a estratégia da produção em usar músicas icônicas para ampliar a carga dramática e simbólica de seus materiais promocionais — algo que já se tornou uma marca registrada do seriado.

Ainda assim, o episódio mostrou que nem sempre os próprios artistas estão atentos à reutilização de seus trabalhos em produções contemporâneas, especialmente quando isso acontece fora do radar pessoal de quem criou a obra.

Uma descoberta feita ao vivo, durante entrevista

O episódio envolvendo Gillan ganhou repercussão após uma entrevista concedida à revista Classic Rock. Ao ser questionado sobre o uso de “Child in Time” em um teaser da nova temporada da série, o vocalista respondeu de forma direta e sem rodeios: “Não sei do que você está falando”.

Diante da reação, o entrevistador esclareceu que se tratava de uma produção da Netflix. A resposta seguinte ajudou a contextualizar o motivo do desconhecimento: “Eu não tenho Netflix, não tenho televisão. Então, sendo assim, é uma surpresa”.

A fala, longe de soar ensaiada ou defensiva, reforça um traço conhecido da postura de Gillan nos últimos anos: o afastamento progressivo do consumo regular de mídia audiovisual. Aos 80 anos, o cantor mantém uma relação cada vez mais distante com o ritmo acelerado das plataformas digitais e dos lançamentos em streaming, algo que contrasta com a enorme presença de sua obra em produtos culturais atuais.

O episódio também ilustra como músicas criadas há mais de cinco décadas seguem circulando de forma orgânica, muitas vezes sem envolvimento direto dos artistas, mas ganhando novos significados para gerações que sequer estavam vivas quando elas foram gravadas.

Aos 80 anos, Ian Gillan afirma manter distância do consumo regular de mídia digital, em contraste com a forte presença de sua obra no streaming atual — Foto: Reprodução

A relação de Ian Gillan com a televisão ao longo dos anos

Embora hoje se declare completamente desligado da TV e dos serviços de streaming, Gillan nem sempre manteve essa postura. Em entrevista concedida à revista AntiHero em 2016, o cantor comentou de forma mais detalhada sobre seus hábitos de consumo audiovisual durante turnês e períodos fora de casa.

“Eu não gosto muito de assistir aos jogos de futebol. Antigamente, eu via tudo o que podia na TV e, hoje, claro, tudo está disponível. Tenho um aparelhinho com o qual posso assistir a qualquer canal do mundo no quarto do hotel ou, para ser sincero, acabo levando a minha própria TV. Hoje em dia prefiro assistir a rugby.”

Nos últimos anos, no entanto, problemas de visão relatados pelo próprio artista ajudaram a acelerar esse afastamento. A redução do contato com telas e conteúdos audiovisuais acabou se tornando uma consequência natural desse processo, o que explica por que Gillan não estava ciente da utilização de uma de suas músicas mais famosas em uma das séries mais assistidas da década.

Ainda assim, o desconhecimento não impediu que a banda se posicionasse oficialmente sobre o tema.

Deep Purple, “Child in Time” e o diálogo com novas gerações

Mesmo sem a participação direta de Gillan na decisão criativa, o Deep Purple divulgou oficialmente, em agosto, a versão de “Child in Time” utilizada no material promocional da série, disponibilizando a faixa nas plataformas digitais e em suas redes sociais. O gesto indica que, institucionalmente, a banda acompanhou e endossou a iniciativa.

Ambientada nos anos 1980, “Stranger Things” construiu sua identidade sonora explorando músicas que ajudam a contextualizar emocionalmente a narrativa. Na quarta temporada, lançada em 2022, esse recurso teve impacto direto no mercado musical, com faixas como “Running Up That Hill (A Deal With God)”, de Kate Bush, e “Master of Puppets”, do Metallica, retornando às paradas e alcançando públicos completamente novos.

A escolha de “Child in Time”, apesar de anterior à década retratada pela série, segue essa lógica de recorrer a músicas de forte carga emocional e simbólica. Lançada originalmente no álbum In Rock, de 1970, a faixa se consolidou como uma das composições mais ambiciosas da banda.

Com mais de dez minutos de duração, a música aborda tensões associadas à Guerra Fria e se destaca por mudanças bruscas de dinâmica, longos trechos instrumentais e, sobretudo, pela performance vocal extrema de Gillan. Os gritos agudos que se tornaram sua marca registrada ajudaram a transformar a faixa em um símbolo de virtuosismo — mas também em um desafio físico que o cantor decidiu abandonar ainda em atividade.

Em entrevista à rádio espanhola Rock FM, com transcrição divulgada pelo Blabbermouth, Gillan explicou por que “Child in Time” não faz mais parte dos shows desde 2002: “Não é mais possível. Eu poderia baixar os tons, mas não seria a mesma coisa. Sempre uso a seguinte analogia: quando era jovem fui atleta. Minha modalidade era o salto com vara. Aos 25 anos não conseguia mais praticar. Mesma coisa com ‘Child in Time’. É quase um evento olímpico, muito desafiadora”.

Ele completa: “Quando tinha uns 38 já não soava mais da mesma forma. Então, decidi que se era para fazer mal feito, melhor nem tentar. E foi isso, nunca mais olhei para trás”.

A presença da música em “Stranger Things”, portanto, não representa apenas uma homenagem ou escolha estética, mas também um exemplo de como obras criadas em contextos históricos específicos continuam sendo reinterpretadas e ressignificadas. Mesmo sem saber, Ian Gillan voltou a dialogar com o presente — ainda que, dessa vez, a descoberta tenha vindo por meio de uma pergunta inesperada.

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