GORILLAZ lança THE MOUNTAIN e transforma o luto em eixo criativo
Novo álbum da banda marca ruptura com o passado recente, aposta em influências indianas e reúne colaborações póstumas de nomes históricos da música
Redação - SOM DE FITA
3/2/2026




O Gorillaz retorna em 2026 com The Mountain, seu nono álbum de estúdio e o primeiro lançado pelo próprio selo da banda, a Kong, após anos vinculada à Parlophone. O disco surge em um período de mudanças pessoais para Damon Albarn e Jamie Hewlett, criadores do projeto, e assume como ponto central a reflexão sobre morte, memória e transformação. A Rádio Rock acompanhou uma audição especial do trabalho no Cine Belas Artes, que incluiu a exibição do curta animado “The Mountain, The Moon Cave and The Sad God”, parte da nova fase conceitual do grupo.
Mais do que uma sequência natural na discografia, o álbum propõe uma mudança estética e simbólica. A obra se apoia em experiências pessoais recentes da dupla e amplia o diálogo cultural que sempre marcou a identidade do Gorillaz.
Influências indianas e colaborações que atravessam gerações
Musicalmente, The Mountain amplia o caráter híbrido do grupo ao mergulhar em sonoridades ligadas à tradição indiana. Instrumentos como sitar, bansuri, tabla e pakhawaj aparecem de forma orgânica nas faixas, combinados às bases eletrônicas e à estrutura pop alternativa que caracterizam a banda desde Demon Days.
A faixa de abertura, que dá nome ao disco, apresenta essa atmosfera logo nos primeiros minutos e encerra com uma narração de Dennis Hopper, ator e cineasta falecido em 2010 e que já havia colaborado com o grupo em Demon Days (2005). A presença póstuma não é isolada: o álbum também traz participações de Tony Allen, Bobby Womack, Dave Jolicoeur e Mark E. Smith.
A decisão de reunir esses nomes dialoga diretamente com o tema central do projeto. O disco não apenas menciona o luto, mas o transforma em elemento estruturante, conectando artistas de diferentes épocas e gêneros em uma mesma narrativa sonora.
Durante as gravações na Índia, Albarn optou por trabalhar diretamente com músicos locais, convidando instrumentistas tradicionais para sessões presenciais em estúdio. Segundo relatos da equipe, muitas faixas surgiram de improvisações coletivas, com piano ou harmonium conduzindo harmonias enquanto os músicos desenvolviam variações melódicas complexas. O resultado evita a apropriação superficial e aposta na construção colaborativa.



O Gorillaz em paisagem montanhosa que simboliza a travessia espiritual e o processo de transformação presentes em The Mountain. Foto: Reprodução

Luto, reconexão e a experiência transformadora na Índia
A concepção do álbum está ligada a acontecimentos pessoais marcantes. Um AVC sofrido pela sogra de Albarn, durante uma viagem a Jaipur, foi o ponto inicial de uma imersão cultural que alteraria o rumo do projeto. O músico permaneceu no país por semanas, período que descreve como decisivo para sua visão artística.
Anos depois, entre 2024 e 2025, Albarn e Hewlett voltaram a se aproximar em meio à perda de seus respectivos pais. Em entrevista à Rolling Stone, Hewlett comentou:
“Nos encontramos em uma sintonia muito parecida. O pai de Damon faleceu e o meu faleceu 10 dias depois. Pensamos: OK, os temas deste disco estão começando a se apresentar para nós com bastante clareza.”
A experiência indiana influenciou diretamente o conceito do álbum. Albarn relatou ao jornal The Sun:
“O país é um lugar muito interessante para se estar de luto, porque os indianos têm uma visão muito positiva da morte. A Inglaterra não sabe lidar com a morte. Creio que esse álbum é parte da tradição de celebrar suas vidas.”
A vivência incluiu rituais simbólicos, como a dispersão das cinzas do pai de Albarn às margens do Ganges, reforçando a dimensão espiritual que permeia o trabalho.
Nova narrativa visual e maturidade conceitual
No campo visual, Hewlett reformula o universo gráfico do quarteto animado. As paisagens industriais e distópicas de fases anteriores dão lugar a montanhas, tons terrosos e referências arquitetônicas indianas. Os personagens também passam por ajustes sutis: Murdoc surge menos caricatural, 2-D aparenta maior equilíbrio, Noodle assume postura de mediadora cultural e Russel reforça sua ligação com ritmo e espiritualidade.
A narrativa ficcional acompanha o grupo chegando à Índia com passaportes falsos, em uma metáfora sobre abandonar excessos e identidades cristalizadas. O roteiro amplia a ideia de deslocamento — físico e simbólico — que atravessa o disco.
The Mountain se consolida como um dos trabalhos mais densos do Gorillaz ao combinar experiências pessoais, diálogo intercultural e continuidade estética. O álbum revisita a tradição colaborativa do grupo, mas sob um prisma mais introspectivo. Ao transformar perdas íntimas em matéria criativa, a banda reafirma sua vocação para reinvenção constante, sem romper completamente com o passado que a definiu.
Sem recorrer a fórmulas prontas, o projeto apresenta o luto como processo de passagem, não de encerramento. É um movimento que amplia a identidade do Gorillaz e projeta a banda para uma nova etapa, sustentada por experimentação, memória e abertura para outras culturas.
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