GEEZER BUTLER recorre à IA em demos e prepara novo álbum solo após despedida do Black Sabbath
Baixista afirma que tecnologia serve apenas como ferramenta criativa inicial e que vozes humanas serão usadas na versão final do projeto
Redação - SOM DE FITA
1/7/2026




Depois de décadas como um dos pilares do heavy metal, Geezer Butler volta a chamar atenção não apenas pelo que toca, mas pela forma como tem organizado seu processo criativo. O músico confirmou que está trabalhando em um novo álbum solo e que, nas etapas iniciais de composição, vem utilizando um cantor gerado por inteligência artificial para dar voz às letras enquanto desenvolve as músicas. A estratégia, segundo ele, não substitui intérpretes humanos, mas facilita a apresentação do material a vocalistas que participarão do disco.
A revelação aconteceu durante uma sessão pública de perguntas e respostas no evento Steel City Con, realizado na Pensilvânia, nos Estados Unidos. No encontro, Butler comentou sobre o momento atual da carreira após a despedida definitiva do Black Sabbath dos palcos, ocorrida em julho de 2025, e explicou como a tecnologia passou a ocupar um papel funcional dentro do estúdio doméstico. O assunto surge em um contexto mais amplo de debates sobre os limites e usos da inteligência artificial na música — tema que divide opiniões entre artistas, público e indústria.
Sem adotar um discurso entusiasmado nem defensivo, o baixista descreve a IA como uma solução prática para um problema antigo: a ausência de um cantor disponível durante a fase de criação. A partir desse recurso, ele consegue estruturar melhor as canções antes de levá-las a colaboradores “de verdade”, como ele próprio faz questão de frisar.
O uso da inteligência artificial como ferramenta de rascunho
Durante o bate-papo no Steel City Con, Geezer Butler explicou que o material em desenvolvimento não surgiu do zero. Segundo ele, há décadas de composições guardadas, muitas delas iniciadas ainda nos anos 1980, que agora estão sendo revisitadas e atualizadas. O entrave, até pouco tempo atrás, era conseguir visualizar essas músicas de forma mais completa, já que a ausência de um vocalista dificultava a definição do caminho final das letras e melodias.
Conforme a transcrição divulgada pelo site Blabbermouth, Butler resumiu o processo da seguinte forma:
“Tenho um monte de material. Desde que fizemos o último show do Black Sabbath, eu venho revisitando tudo que compus desde os anos 1980 e atualizando tudo. O que antes me segurava era o fato de eu não ter um cantor quando estou em casa, mas aí a inteligência artificial apareceu [risos]. Então, agora atualizei todas as minhas músicas e estou usando um cantor de IA para dar voz às letras. Assim, posso levar esse material aos cantores com quem vou trabalhar e dizer: ‘é isso que eu quero no álbum’, para que eles tenham uma ideia melhor.”
A fala deixa claro que a IA entra apenas na fase de demonstração, funcionando como uma espécie de maquete sonora. Em vez de apresentar apenas linhas de baixo ou estruturas rítmicas, Butler agora consegue mostrar canções com letra, melodia e dinâmica vocal mais definidas. Isso, na visão do músico, agiliza o diálogo com intérpretes e reduz ambiguidades durante o processo de gravação.
O baixista também comentou que, antes desse recurso, o método era bem mais rudimentar. Ele tocava um riff ou uma base simples e pedia que o cantor imaginasse algo por cima. Embora esse caminho tenha funcionado durante muitos anos, Butler avalia que a tecnologia atual oferece uma alternativa mais clara e objetiva para transmitir intenções artísticas.



Geezer Butler lembra que o processo de composição era mais rudimentar no passado e diz que a tecnologia hoje facilita a comunicação das ideias musicais — Foto: Reprodução

Entre a desconfiança do público e a praticidade no estúdio
Geezer Butler não ignora que o uso de inteligência artificial na música desperta resistência. O próprio músico reconheceu que parte do público enxerga a prática como uma forma de “trapaça”, especialmente em um cenário em que surgem bandas e artistas completamente gerados por algoritmos. Ainda assim, ele diferencia claramente esse tipo de produção do que está fazendo em seu novo projeto.
Segundo Butler, a IA não substitui músicos nem elimina o fator humano da criação. Ela apenas ocupa um espaço intermediário entre a ideia e a execução final. O baixista explicou esse ponto com mais detalhes na mesma conversa:
“Antes, eu só tocava um riff de baixo ou algo do tipo e dizia: ‘você consegue cantar por cima disso?’ e me respondiam. Mas agora é muito melhor, porque você pode ficar no seu estúdio e fazer tudo com IA, e depois levar para músicos de verdade e deixar que eles assumam. Isso realmente me ajudou. Muita gente acha que isso é trapaça.”
A declaração revela uma postura pragmática, distante tanto do entusiasmo tecnológico quanto do alarmismo. Para Butler, a ferramenta não altera a essência do trabalho, que continua dependendo da interpretação, da personalidade e da experiência de cantores humanos. O uso da IA, nesse caso, serve para organizar ideias e otimizar tempo — algo especialmente relevante para um músico que já passou dos 70 anos e tem um vasto catálogo de composições inacabadas.
O debate, no entanto, vai além da experiência individual de Geezer Butler. A indústria musical tem acompanhado de perto o avanço dessas tecnologias, discutindo direitos autorais, ética e impacto no mercado de trabalho. O relato do baixista se soma a um número crescente de artistas veteranos que encaram a IA como uma ferramenta auxiliar, não como substituta da criatividade humana.
Trajetória, legado e os próximos passos fora do Sabbath
Nascido como Terence Michael Joseph Butler, em Aston, na Inglaterra, Geezer Butler construiu uma trajetória singular dentro do rock pesado. O apelido surgiu ainda na infância, quando ele costumava chamar os amigos de “geezer”, uma gíria britânica para “velhote”. Muito antes da fama, Butler já demonstrava interesses que extrapolavam a música, adotando o vegetarianismo ainda jovem e se tornando vegano ao longo da vida.
Além da atuação como baixista, Butler teve papel central como letrista do Black Sabbath, especialmente durante a formação original da banda. Influenciado por leituras de ocultismo e por textos de Aleister Crowley, ele ajudou a moldar o imaginário sombrio e crítico que se tornaria uma das marcas do grupo. Suas letras abordaram temas como guerra, alienação, religião e medo coletivo, estabelecendo um contraste marcante com a música pesada que acompanhava esses versos.
Fora do Sabbath, Geezer Butler também teve passagens importantes pela carreira solo de Ozzy Osbourne, integrando a banda do vocalista em diferentes momentos. Ele participou da turnê de No Rest for the Wicked entre 1989 e 1991 e retornou em 1995 para gravar o álbum Ozzmosis. Paralelamente, desenvolveu projetos próprios que passaram por diferentes nomes — Geezer Butler Band, Geezer e G/Z/R — e por mudanças de sonoridade, incorporando influências mais contemporâneas ao longo dos anos.
Nos anos mais recentes, Butler integrou o supergrupo Deadland Ritual, ao lado de músicos ligados a nomes como Guns N’ Roses, Scars on Broadway e Billy Idol. Fora da música, também é conhecido pelo ativismo em defesa dos animais, tendo colaborado com a PETA em campanhas ao longo da carreira.
Agora, com o Black Sabbath oficialmente fora dos palcos, Geezer Butler parece confortável em explorar novas formas de criação, sem pressa e sem compromisso com expectativas externas. O novo álbum solo ainda não tem data de lançamento nem detalhes sobre os vocalistas envolvidos, mas o relato sobre o uso de inteligência artificial nas demos indica um processo em andamento, guiado mais pela curiosidade e pela praticidade do que por modismos tecnológicos.
Em um momento em que a música discute seus próprios limites diante da automação, Butler oferece um exemplo de como artistas experientes podem incorporar novas ferramentas sem abrir mão do controle criativo. O resultado final, como ele mesmo deixa claro, continuará sendo humano — ainda que o caminho até lá passe, agora, por uma voz artificial provisória.
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