FÁBIO LAGUNA transforma estrada em páginas no livro “Metal Sobre Rodas”
Tecladista narra experiências vividas de bicicleta durante a turnê de 2024 e conecta rotina de shows, cicloturismo e reflexões pessoais
Redação - SOM DE FITA
1/6/2026




Entre ônibus, palcos, hotéis e passagens rápidas por cidades brasileiras, o cotidiano de uma turnê costuma seguir um roteiro previsível para quem vive da música pesada. No entanto, em 2024, o tecladista Fábio Laguna decidiu acrescentar um elemento pouco comum a esse cenário: a bicicleta. A experiência virou matéria-prima para o livro Metal Sobre Rodas – Aventuras entre o Heavy Metal e o Pedivela, no qual o músico registra suas vivências ao longo de mais de um mês na estrada ao lado de Edu Falaschi.
A obra surge como um relato híbrido, que não se limita a bastidores de shows nem a um manual técnico de ciclismo. O livro se constrói a partir do encontro entre duas rotinas exigentes — a vida de músico profissional e a prática constante do pedal — e aposta em uma narrativa direta, marcada por observações pessoais, episódios inusitados e reflexões sobre mobilidade, disciplina e liberdade.
Ao longo das páginas, Laguna descreve como encaixou trajetos de bicicleta nos intervalos de uma turnê extensa, atravessando 11 estados brasileiros e o Distrito Federal em 38 dias. O resultado é um registro que amplia o olhar sobre a estrada, mostrando que mesmo agendas apertadas podem abrir espaço para outras formas de experiência e contato com os lugares visitados.
A turnê de 2024 vista além do palco
O ponto de partida de Metal Sobre Rodas é a turnê realizada em 2024, período em que Fábio Laguna conciliou compromissos musicais com saídas diárias de bicicleta sempre que o tempo permitia. Enquanto a logística tradicional envolvia ensaios, deslocamentos longos e apresentações noturnas, os momentos sobre duas rodas funcionavam como uma espécie de pausa ativa dentro da rotina intensa.
No livro, o músico relata pedaladas realizadas em contextos variados: centros urbanos ainda despertando pela manhã, orlas de praias, estradas secundárias e trajetos improvisados próximos a hotéis ou casas de show. Esses percursos, muitas vezes curtos, ganham relevância justamente por quebrarem a lógica acelerada das turnês, oferecendo um ritmo diferente para observar cidades e pessoas.
As histórias não seguem um tom épico nem romantizado. Laguna descreve limitações físicas, cansaço acumulado, imprevistos mecânicos e a necessidade de adaptação constante. A bicicleta, longe de ser apresentada como fuga, aparece como ferramenta de organização mental e física, ajudando o músico a lidar com o desgaste natural da estrada.
Ao percorrer cidades como Goiânia, Belo Horizonte e Salvador, além de trechos do litoral nordestino, o autor aponta contrastes culturais, mudanças de paisagem e situações que dificilmente fariam parte da agenda convencional de um artista em turnê. A narrativa se apoia em detalhes cotidianos, reforçando a ideia de que a experiência não está apenas no destino, mas no caminho percorrido.



Fábio Laguna relata os desafios físicos e mentais da estrada, mostrando a bicicleta como ferramenta de equilíbrio e adaptação — Foto: Divulgação

Ciclismo como método, não como discurso
Um dos aspectos centrais do livro é a forma como o ciclismo é tratado: não como bandeira ideológica nem como prática esportiva competitiva, mas como hábito incorporado à vida profissional. Para Fábio Laguna, o pedal aparece associado a valores como constância, planejamento e resistência — elementos que dialogam diretamente com sua trajetória musical.
Ao longo do texto, o autor compartilha reflexões sobre como a bicicleta influenciou sua relação com o tempo e com o próprio corpo. Há passagens que resgatam o período da pandemia, quando o pedal ganhou ainda mais espaço em sua rotina, funcionando como ferramenta de equilíbrio em um momento de incerteza para artistas e trabalhadores da cultura.
Essas reflexões não se transformam em discursos longos ou didáticos. Elas surgem diluídas nos relatos, a partir de situações práticas: acordar cedo após chegar tarde de um show, ajustar horários para não comprometer compromissos profissionais, lidar com o desgaste físico sem abrir mão da responsabilidade no palco.
O livro também aborda questões ligadas à mobilidade urbana e à relação das cidades brasileiras com ciclistas, ainda que de forma indireta. Ao narrar seus trajetos, Laguna expõe desafios comuns a quem pedala no país, como infraestrutura limitada, trânsito hostil e a necessidade constante de atenção. Esses elementos aparecem como parte do cenário, sem transformar a obra em um manifesto.
Música, estrada e narrativa pessoal
Embora o ciclismo seja o fio condutor de Metal Sobre Rodas, a música permanece como pano de fundo constante. Fábio Laguna revisita sua trajetória no heavy metal brasileiro, lembrando passagens por bandas como Angra e Hangar, além da parceria recorrente com Edu Falaschi. Esses elementos ajudam a contextualizar o leitor sobre a dimensão profissional da turnê narrada.
O prefácio do livro é assinado pelo jornalista Thiago Rahal Mauro, que acompanhou parte da viagem e testemunhou de perto a rotina descrita. No texto de abertura, ele destaca como a bicicleta se tornou um símbolo daquela jornada específica, influenciando o clima da equipe e funcionando como ponto de curiosidade e conversa entre músicos e técnicos.
Além dos relatos pessoais, a obra inclui registros de percursos, anotações práticas e observações sobre os lugares visitados. Esses trechos ampliam o alcance do livro, aproximando-o não apenas de fãs de metal, mas também de leitores interessados em cicloturismo e narrativas de viagem.
Publicada pela Lagunation Editora, Metal Sobre Rodas se posiciona como um projeto autoral que foge do formato tradicional de biografias musicais. Em vez de revisitar exclusivamente o passado ou grandes marcos da carreira, Laguna opta por olhar para um recorte específico de sua vida recente, tratando-o com atenção aos detalhes e sem a necessidade de engrandecimento.
O resultado é um livro que funciona em diferentes camadas. Para fãs, oferece um contato mais próximo com o cotidiano de um músico experiente. Para ciclistas, apresenta um olhar pouco comum sobre o pedal em contextos não turísticos. Para leitores em geral, propõe uma reflexão simples sobre como paixões distintas podem coexistir e se fortalecer mutuamente.
Metal Sobre Rodas – Aventuras entre o Heavy Metal e o Pedivela está disponível diretamente com o autor, por meio de contato via Instagram. O lançamento reforça a versatilidade de Fábio Laguna e mostra que, mesmo em uma agenda marcada por compromissos rígidos, ainda há espaço para experimentar outros ritmos — seja no som dos teclados ou no giro silencioso das rodas.
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