DESIRE aposta em synth-pop de viés sombrio no circuito carioca
Duo de Barra do Piraí dialoga com referências clássicas do pós-punk e da new wave em um projeto de estética contida
Redação - SOM DE FITA
1/19/2026




O duo Desire vem construindo sua presença no circuito synth-pop do Rio de Janeiro ao investir em uma sonoridade que dialoga diretamente com referências clássicas da música alternativa europeia dos anos 1980. Formado em Barra do Piraí (RJ) por Ana Clara Palmeira, nos vocais, e Matheus Ribeiro, responsável pelas letras e pelos sintetizadores, o projeto aposta em batidas dançantes, climas melancólicos e uma produção enxuta, alinhada à tradição do pós-punk e da new wave.
Sem grandes rupturas estéticas, o Desire apresenta um som que se ancora em fórmulas já conhecidas, buscando equilíbrio entre atmosfera e acessibilidade. A proposta não é reinventar o gênero, mas trabalhar dentro de seus códigos, explorando timbres sintéticos, linhas rítmicas diretas e uma abordagem vocal sóbria. O resultado é um repertório que funciona como exercício de estilo, voltado a um público familiarizado com esse universo sonoro.
Referências assumidas e escolhas estéticas
As influências do Desire são facilmente identificáveis e fazem parte do vocabulário básico do synth-pop e do pós-punk. O duo dialoga com o legado do new wave europeu e com a vertente mais fria e atmosférica do gênero, evocando nomes como Xmal Deutschland e Depeche Mode. Essas referências aparecem menos como homenagem direta e mais como base estrutural para a construção das músicas.
A voz de Ana Clara é utilizada de forma econômica, sem excessos interpretativos, reforçando a proposta minimalista do projeto. Sua presença vocal flutua sobre as programações eletrônicas de Matheus Ribeiro, que opta por arranjos contidos e batidas regulares. As letras seguem a mesma lógica, explorando temas introspectivos e urbanos sem recorrer a grandes metáforas ou narrativas elaboradas.
Essa escolha estética resulta em faixas que priorizam clima e coerência, ainda que, em alguns momentos, soem previsíveis para ouvintes mais habituados ao gênero. A produção limpa e direta reforça a identidade do duo, mas também evidencia seus limites criativos dentro de uma linguagem já bastante explorada ao longo das últimas décadas.



Capa do EP do Duo DESIRE. - Foto: Divulgação

O EP de estreia e sua função introdutória
O EP de estreia do Desire cumpre bem o papel de apresentação do projeto. Em poucas faixas, o duo deixa claras suas referências, sua proposta sonora e o tipo de atmosfera que pretende construir. Há uma unidade evidente entre as músicas, tanto nos timbres quanto no andamento, o que contribui para uma escuta coesa, ainda que pouco surpreendente.
As composições dialogam com o peso melódico associado ao New Order e com a abordagem pop mais contida do Pet Shop Boys, sempre filtradas por uma produção simples e direta. O EP não busca impacto imediato ou grandes refrões, mas sim manter uma atmosfera constante, adequada tanto para a pista quanto para a escuta casual.
Dentro do cenário carioca, o lançamento se insere como mais uma iniciativa voltada à retomada de sonoridades eletrônicas de viés retrô, dialogando com um público específico e fiel a esse tipo de estética. A opção por não extrapolar os limites do gênero torna o trabalho acessível, embora também restrinja seu alcance a nichos já familiarizados com essas referências.
Um projeto em construção no circuito fluminense
Ao se posicionar dentro do circuito synth-pop e pós-punk do Rio de Janeiro, o Desire adota uma postura discreta e sem grandes ambições declaradas. O duo parece mais interessado em consolidar uma identidade funcional do que em propor avanços significativos no gênero. Essa abordagem pode ser vista tanto como coerente quanto conservadora, dependendo do ponto de vista do ouvinte.
Em um cenário marcado por projetos que revisitam o passado recente da música eletrônica, o Desire se soma a essa movimentação sem destoar, mas também sem se destacar de forma contundente. O EP de estreia funciona como um registro honesto de intenções e estabelece uma base a partir da qual o duo pode evoluir, caso opte por expandir suas referências ou arriscar novas soluções sonoras.
Com uma sonoridade que respeita suas influências e se mantém fiel aos códigos do synth-pop e do pós-punk, o Desire se apresenta como um projeto em desenvolvimento dentro do circuito carioca, voltado a quem busca música eletrônica de atmosfera sombria, direta e sem grandes pretensões de reinvenção.
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