De canção natalina a clássico global: a trajetória inesperada de “It Must Have Been Love”
Antes de conquistar o mundo como trilha de cinema, a música mais famosa do Roxette nasceu com espírito de Natal e melancolia íntima
Redação - SOM DE FITA
12/26/2025




Poucas músicas atravessam décadas mantendo intacta sua capacidade de emocionar públicos de diferentes gerações. “It Must Have Been Love” é um desses raros casos. Associada imediatamente ao sucesso planetário do duo sueco Roxette e eternizada no imaginário popular como trilha de uma das comédias românticas mais icônicas dos anos 1990, a canção carrega uma história muito menos óbvia do que sua versão definitiva sugere. Longe de ter sido concebida como uma grande power ballad pensada para rádios internacionais, a música nasceu de forma simples, quase íntima, com um espírito natalino e um coração partido como ponto de partida.
Em entrevista recente ao jornal britânico The Guardian, o guitarrista e compositor Per Gessle voltou ao passado para relembrar a gênese da faixa e destacou que o impacto duradouro da canção nunca esteve em excessos de produção ou arranjos grandiosos. Pelo contrário. Segundo ele, a força de “It Must Have Been Love” reside justamente na contenção. “Não precisa de grandes acordes nem orquestrações. Toda a força está na voz da Marie”, afirmou, em referência à interpretação de Marie Fredriksson, responsável por dar identidade definitiva à música.
Essa simplicidade, aliada a uma carga emocional honesta, é um dos fatores que ajudam a explicar por que a canção sobreviveu a modismos, mudanças de mercado e transformações no consumo musical. No entanto, antes de alcançar esse status global, “It Must Have Been Love” percorreu um caminho curioso, começando como uma faixa de Natal lançada apenas na Suécia.
Uma música de Natal para corações partidos
A origem de “It Must Have Been Love” remonta a 1987, período em que o Roxette ainda consolidava sua identidade dentro do pop escandinavo. Naquele momento, a banda era vista como uma promessa regional, distante do fenômeno internacional que se tornaria poucos anos depois. Foi nesse contexto que surgiu a primeira versão da música, criada especificamente para um lançamento natalino no mercado sueco.
A pedido da gravadora, Gessle incluiu uma referência explícita ao Natal no segundo verso da letra, dando origem à versão intitulada “It Must Have Been Love (Christmas for the Broken Hearted)”. Diferente do clima festivo associado à data, a canção falava de despedida, frustração e do silêncio emocional que acompanha relações que chegam ao fim — temas pouco usuais para músicas natalinas tradicionais, mas que dialogavam com uma melancolia típica do inverno europeu.
Mesmo com esse recorte específico, a música já apresentava elementos que mais tarde seriam reconhecidos mundialmente: uma melodia direta, versos simples e um espaço amplo para a interpretação vocal. A gravação original era despojada, sem grandes camadas instrumentais, permitindo que a emoção conduzisse a narrativa. Embora tenha sido lançada apenas na Suécia, a faixa teve boa recepção local e passou a circular como um desses “segredos” da discografia do grupo.
O mais interessante é que, mesmo nesse formato inicial, a música já demonstrava não estar presa ao contexto natalino. O Natal funcionava mais como pano de fundo simbólico do que como tema central. O sentimento de perda, a tentativa de racionalizar um amor que acabou e a aceitação melancólica do fim já estavam todos ali, prontos para dialogar com públicos muito além de um feriado específico.



Da Suécia para Hollywood: a transformação em fenômeno global
O ponto de virada definitivo na trajetória da música aconteceu alguns anos depois, quando o Roxette recebeu o convite para integrar a trilha sonora do filme Uma Linda Mulher. O longa, estrelado por Julia Roberts e Richard Gere, precisava de uma canção que traduzisse romantismo, vulnerabilidade e emoção sem soar excessivamente dramática. “It Must Have Been Love” se encaixou perfeitamente nessa proposta.
Para a nova versão, a letra foi levemente adaptada, removendo a referência direta ao Natal e tornando a narrativa mais universal. O arranjo ganhou novos elementos, mas manteve a essência minimalista defendida por Gessle. A interpretação de Marie Fredriksson, mais uma vez, foi o eixo central da gravação, conduzindo a música com equilíbrio entre fragilidade e contenção emocional.
O resultado foi imediato. Após o lançamento do filme, a canção explodiu nas paradas internacionais, alcançando o topo da Billboard Hot 100 nos Estados Unidos e se tornando um dos maiores sucessos da história do Roxette. A associação com o cinema ajudou a ampliar o alcance da música, mas não foi o único fator responsável por sua longevidade. Diferente de muitas trilhas sonoras que envelhecem junto com seus filmes, “It Must Have Been Love” conseguiu se desvincular da obra cinematográfica e seguir seu próprio caminho.
A partir dali, a música passou a ser revisitada constantemente em rádios, coletâneas, trilhas de novelas e playlists temáticas. Mesmo fora do contexto de “Uma Linda Mulher”, ela continuou funcionando como um retrato honesto de relações interrompidas, sem recorrer a dramatizações exageradas. Essa universalidade ajudou a canção a atravessar gerações, mantendo-se relevante mesmo em um cenário musical profundamente transformado.
Legado, ausência e permanência emocional
Com o passar dos anos, “It Must Have Been Love” deixou de ser apenas um grande sucesso comercial para se tornar um marco emocional na trajetória do Roxette. Esse legado ganhou um tom inevitavelmente agridoce após a morte de Marie Fredriksson, em 2019. A cantora, cuja voz definiu a identidade da banda, tornou-se inseparável da canção, e sua ausência passou a ressignificar cada nova audição.
Ainda assim, como o próprio Gessle costuma lembrar, a música continua viva exatamente porque carrega uma emoção que não se esgota. “It Must Have Been Love” não depende de contexto histórico, moda ou narrativa externa para funcionar. Ela se sustenta na honestidade de sua interpretação e na simplicidade de sua construção. É uma música sobre reconhecer o fim de algo que foi real, sem cinismo e sem heroísmo.
Curiosamente, o elo original com o Natal nunca desapareceu completamente. Mesmo na versão definitiva, muitos ouvintes relatam uma associação natural da canção com o fim de ano — não como celebração, mas como reflexão. Esse período, marcado por balanços pessoais e reencontros emocionais, acaba dialogando com o sentimento de despedida presente na letra.
Décadas depois de sua criação, “It Must Have Been Love” segue sendo tocada, regravada e redescoberta por novos públicos. Sua trajetória, que começou como uma canção natalina restrita ao mercado sueco e se transformou em um clássico global, reforça uma ideia simples: às vezes, as músicas mais duradouras nascem sem grandes pretensões. Elas sobrevivem porque conseguem dizer muito com pouco — exatamente como Marie Fredriksson fez, nota após nota, em uma das interpretações mais marcantes da música pop contemporânea.
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