BILL WARD elogia BRANN DAILOR e destaca maturidade e escuta como virtudes centrais da bateria no metal

Durante programa de rádio em janeiro de 2026, o baterista do Black Sabbath comentou o estilo, a musicalidade e a postura artística do músico do Mastodon, conectando gerações e visões sobre o papel da bateria no heavy metal.

Redação - SOM DE FITA

1/5/2026

A relação entre gerações do metal nem sempre se dá por comparações diretas ou disputas de legado. Em muitos casos, ela surge a partir do reconhecimento mútuo, da escuta atenta e da admiração sincera entre músicos que compreendem o peso histórico de seus instrumentos. Foi exatamente esse o tom adotado por Bill Ward ao falar sobre Brann Dailor, baterista do Mastodon, durante sua participação no programa LA Radio Sessions, exibido em janeiro de 2026.

Conhecido por uma abordagem intuitiva, jazzística e profundamente orgânica da bateria, Ward usou o espaço não apenas para elogiar a técnica de Dailor, mas também para refletir sobre o verdadeiro papel do baterista dentro de uma banda de rock pesado. Suas declarações chamaram atenção por irem além do virtuosismo e apontarem para valores como escuta, respeito e interação musical — conceitos que, segundo ele, definem um grande músico.

Bill Ward analisa a bateria de Brann Dailor

Ao relembrar o primeiro contato com o trabalho de Brann Dailor, Bill Ward deixou claro que sua relação com o músico começou antes de qualquer encontro pessoal. “Antes de tudo, Brann — antes mesmo de conhecê-lo pessoalmente — eu o conheci ouvindo a música do Mastodon”, afirmou. Para Ward, a impressão inicial veio da maneira como diferentes influências coexistem no modo de tocar de Dailor. “Tudo nele, as orquestrações, o jazz, o rock, todas essas partes que obviamente vivem dentro dele, são muito bem organizadas.”

O baterista do Black Sabbath destacou em especial a faixa “The Last Baron”, frequentemente executada em seu programa de rádio. Segundo Ward, foi ali que ele passou a compreender com mais clareza a lógica musical de Dailor. “Quando ouvi ‘The Last Baron’ — nós tocamos essa música tantas vezes no programa — eu fiquei impressionado. Acho que foi ali que realmente conheci o Brann, no sentido de ouvir com atenção para onde ele estava indo, o que estava fazendo, como ele pressionava, como recuava, como dava espaço.”

A fala revela um ponto central da admiração de Ward: a consciência dinâmica. Para ele, Dailor domina não apenas a técnica, mas o fluxo da música. “Eu ouvi e pensei: ‘Meu Deus, esse cara realmente aprendeu a tocar bateria’.” A frase, simples à primeira vista, carrega um peso significativo vindo de alguém que ajudou a definir os fundamentos do metal.

Confira abaixo:

Técnica, respeito e maturidade: o que define um grande baterista segundo Ward

Em sua análise, Bill Ward fez questão de separar o ato de tocar bateria da ideia de simplesmente “bater”. “Aprender a tocar bateria não é tão fácil assim. A gente pode começar batendo em qualquer coisa. No meu caso, foi tentar aprender a tocar ‘Peggy Sue’, do Buddy Holly”, relembrou, traçando um paralelo entre o aprendizado inicial e a construção de uma linguagem própria.

Para Ward, Brann Dailor representa alguém que superou essas etapas com profundidade. “A articulação do Brann… eu acho que ele é digno de todos os elogios que recebe. Acho que agora todo mundo reconheceu que ele é um baterista extraordinário em nível mundial.” Mais do que rapidez ou força, o que chama atenção é a relação com os outros instrumentos. “A intuição dele e a interação com os outros instrumentos são quase premonitórias e sempre na medida certa.”

Um dos elogios mais contundentes veio quando Ward falou sobre contenção — algo raro em discursos sobre bateria no metal. “Nunca ouvi ele exagerar em uma parte a ponto de tirar espaço de outro músico. Esse é o sinal de um baterista realmente bom pra caralho.” Para Ward, saber quando não tocar é tão importante quanto executar passagens complexas. “Ele sabe intuitivamente quando não exagerar, quando não pressionar algo, quando deixar o ar passar, quando permitir que as notas dos outros membros da banda respirem.”

O veterano reforçou que essa postura é parte essencial da função do baterista. “Isso é ser baterista — aprender a tocar com os outros músicos.” E, ao lembrar de sua própria trajetória, Ward citou a necessidade de adaptação dentro do Black Sabbath, tocando com Tony Iommi, Geezer Butler e Ozzy Osbourne. “Você tem que tocar de acordo com onde eles estão também. Você precisa ser respeitoso como baterista, e o Brann é respeitoso.”

Influências, legado e o encontro de gerações no metal

A admiração não é unilateral. Em uma entrevista concedida em 2019 à Music Radar, Brann Dailor deixou claro que se identifica mais com a escola de Bill Ward do que com outras vertentes do metal. “Eu me considero mais do time do Bill Ward na bateria de metal, em vez do lado do Vinnie Paul. Ambos são músicos incríveis, mas eu me vejo mais naquele lado, quando o metal estava nascendo”, explicou.

Dailor contextualizou essa escolha ao falar sobre o momento histórico em que o gênero se formava. “Para as pessoas que estavam tocando aquilo, o metal ainda nem existia. Eles conheciam jazz, mas estavam tentando competir com amplificadores Marshall no máximo, então havia essa fusão acontecendo.” Segundo ele, é nesse ponto de tensão entre técnica jazzística e peso extremo que sua sensibilidade se desenvolveu. “Sinto que é aí que está a minha sensibilidade como baterista.”

As declarações de Ward e Dailor ganham ainda mais peso em um momento de encerramento de ciclos. Em julho de 2025, a formação original do Black Sabbath realizou seu último show, batizado de Back To The Beginning, em Birmingham, cidade natal da banda. O concerto beneficente marcou simbolicamente o fim de uma era iniciada no final dos anos 1960, mas também reforçou como o legado do grupo segue influenciando músicos contemporâneos.

Desde então, Bill Ward tem mantido uma relação mais seletiva com a música. Seu álbum solo Accountable Beasts, lançado em 2015, foi seu primeiro trabalho autoral em quase duas décadas. O disco refletiu uma abordagem mais experimental, com múltiplos colaboradores e diferentes vocalistas, mostrando que sua inquietação artística permanece ativa, mesmo fora do circuito tradicional do metal.

Ao final de sua fala no programa de rádio, Ward resumiu sua admiração de forma direta e pessoal: “Mal posso esperar para ouvir o que ele vai fazer a seguir. Eu sou um baterista que ama bateristas. Então, de qualquer forma… obrigado, Brann.” A frase encerra não apenas um elogio, mas um gesto raro de passagem simbólica entre gerações — sem competição, sem hierarquia forçada, apenas reconhecimento genuíno entre músicos que entendem que tocar bem não é tocar mais, mas tocar junto.

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