Artistas humanos perdem espaço nas plataformas enquanto músicas geradas por IA avançam, alerta vocalista do I Prevail

Para Eric Vanlerberghe, a disputa não é sobre gosto do público, mas sobre ocupação estratégica de playlists e controle do ecossistema digital

Redação - SOM DE FITA

1/3/2026

A discussão sobre o uso de inteligência artificial na música deixou de ser um exercício teórico e passou a fazer parte do cotidiano de artistas, produtores e ouvintes. O crescimento acelerado de faixas criadas por algoritmos, muitas vezes sem qualquer envolvimento humano direto, começa a provocar impactos práticos no funcionamento das plataformas de streaming — e, principalmente, na visibilidade de músicos reais. Esse cenário foi abordado de forma direta por Eric Vanlerberghe, vocalista e fundador do I Prevail, durante uma participação no podcast Modern Wisdom.

Sem recorrer a discursos apocalípticos ou a uma rejeição automática da tecnologia, o músico chamou atenção para um problema estrutural que vem se formando nos bastidores do streaming: a ocupação de espaços estratégicos por artistas e bandas criados inteiramente por inteligência artificial. Para ele, a questão central não é se o público vai preferir ouvir música feita por máquinas, mas como esses conteúdos estão sendo inseridos, promovidos e normalizados dentro de sistemas que definem o que ganha ou não alcance.

Desde playlists editoriais até recomendações algorítmicas personalizadas, as plataformas passaram a desempenhar um papel decisivo na construção de carreiras. Nesse contexto, a presença crescente de projetos artificiais levanta dúvidas sobre equilíbrio, transparência e o futuro da música como atividade profissional.

Playlists como território estratégico da música digital

Ao falar sobre o tema, Eric Vanlerberghe fez questão de separar o debate artístico do debate estrutural. Segundo ele, não se trata de imaginar um cenário em que o ouvinte conscientemente abandona bandas reais para ouvir projetos criados por IA. “Não é o medo de alguém dizer ‘prefiro ouvir uma banda de IA do que uma banda de verdade’”, explicou. “O problema é isso acabar entrando nas playlists, acumulando cada vez mais dessas bandas falsas. Quando você olha, pensa: ‘Quem é esse? Quem é esse?’ — e não há músicos de verdade ali”.

O comentário toca em um ponto sensível do mercado atual. Playlists se tornaram vitrines fundamentais, capazes de definir o sucesso ou o anonimato de um lançamento. Estar incluído em listas populares de “descobertas”, “novidades” ou “músicas para estudar” pode significar milhões de streams adicionais. Quando projetos artificiais passam a ocupar esses espaços, artistas humanos competem não apenas entre si, mas também contra conteúdos que não enfrentam limitações criativas, financeiras ou físicas.

Além disso, músicas geradas por IA podem ser produzidas em escala industrial, adaptadas rapidamente a tendências e moldadas para agradar algoritmos específicos. Esse tipo de eficiência técnica, quando inserida em sistemas automatizados de recomendação, tende a favorecer ainda mais conteúdos artificiais, criando um ciclo difícil de romper para quem depende de tempo, vivência e processo criativo humano.

Para Eric Vanlerberghe, playlists viraram vitrines decisivas no streaming, e a presença de músicas geradas por IA intensifica a disputa por espaço entre artistas humanos — Foto: Reprodução Youtube

O risco de plataformas se tornarem produtoras de conteúdo

O alerta de Vanlerberghe vai além da simples presença de bandas artificiais. Ele levanta uma hipótese ainda mais delicada: a de que as próprias plataformas de streaming passem a produzir músicas internamente, usando inteligência artificial, para abastecer suas playlists. “Quem garante que alguém que possui uma plataforma de streaming não comece a produzir música por conta própria, usando inteligência artificial, e a inseri-la nas playlists?”, questionou. “Como vamos lutar contra isso?”.

Esse cenário levanta questões éticas e econômicas profundas. Plataformas já controlam distribuição, recomendação e monetização. Se passarem também a controlar a produção de conteúdo musical, cria-se um conflito de interesses evidente. Músicas geradas internamente poderiam ser priorizadas nos algoritmos, reduzindo custos com direitos autorais e aumentando margens de lucro, enquanto artistas independentes e até nomes consolidados perderiam espaço de forma silenciosa.

Embora esse movimento ainda não seja oficialmente assumido pelas grandes empresas do setor, a tecnologia já existe e os incentivos econômicos são claros. Em um mercado altamente competitivo, a tentação de reduzir dependência de catálogos externos pode se tornar forte. Para músicos, isso significaria disputar atenção com um “concorrente invisível”, que também é dono do palco.

Tecnologia como ferramenta — e não substituição da experiência humana

Apesar do tom de alerta, Eric Vanlerberghe não adota uma postura tecnofóbica. Ele reconhece que a tecnologia sempre esteve presente na música, desde a amplificação elétrica até softwares de gravação, edição e produção. O ponto central, segundo ele, é a linha tênue entre usar ferramentas tecnológicas para potencializar a criatividade humana e permitir que essas ferramentas substituam completamente a experiência artística.

Para o vocalista, a música carrega algo que vai além da soma de notas, timbres e estruturas matemáticas. Ela é resultado de vivência, erro, contexto cultural e emoção — elementos difíceis de serem replicados por algoritmos, mesmo os mais avançados. O risco, porém, não está apenas na qualidade artística, mas no modelo de negócio que pode se consolidar ao redor da música gerada por IA.

Se o mercado passar a valorizar eficiência, volume e adequação algorítmica acima de identidade e expressão, artistas reais podem se tornar menos “competitivos” dentro das regras impostas pelas plataformas. Nesse sentido, a preocupação de Vanlerberghe reflete um debate mais amplo sobre o futuro da cultura em ambientes digitais cada vez mais automatizados.

A discussão está longe de uma conclusão definitiva. Regulamentações ainda são incipientes, e o próprio público começa agora a se dar conta de que nem tudo o que aparece em suas playlists tem uma história, uma banda ou uma trajetória por trás. O alerta feito pelo vocalista do I Prevail não aponta respostas prontas, mas expõe uma tensão real: a de um ecossistema musical que precisa decidir se a tecnologia será uma aliada da criação humana ou um atalho para substituí-la silenciosamente.

LEIA TAMBÉM: